segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Energia solar: a nova fronteira do Brasil

O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente por ser agraciado com uma enorme diversidade em recursos naturais: temos abundância em rios, florestas, minérios, petróleo, gás, e mais recentemente o vento.

Mas, estranhamente, pouco se fala sobre uma das maiores e mais limpas fontes de energia renovável: o sol.
Chegam ao planeta Terra 34 milhões de megawatts a cada segundo oriundos do sol. Isso é 10 mil vezes mais do que tudo aquilo que nós humanos consumimos hoje em energia. O Brasil é também um dos países mais privilegiados do mundo em insolação, sendo que em algumas regiões temos o mesmo número de dias de sol por ano que o deserto.
Nossa região com menos insolação, Santa Catarina, é 30% a 40% maior que a melhor região da Alemanha, um dos países líderes em produção de energia solar. A China, mesmo sem ter toda essa insolação, já descobriu o potencial dessa nova fonte de energia sendo hoje um dos maiores produtores de painéis fotovoltaicos no mundo.
Painéis fotovoltaicos instalados nos parques eólicos dariam mais retorno às linhas de transmissão instaladas
Por que o Brasil ainda não aproveita essa fonte de energia limpa, sem ruídos, gases, desmatamento e resíduos que nos chega todos os dias? A resposta não é tão simples.
O primeiro fator alegado, alguns anos atrás, era o preço, com alguma dose de razão. Hoje já não podemos mais dizer isso. Além de cair consistentemente nos últimos seis anos devido às novas tecnologias que vêm sendo adotadas na produção de painéis, a expectativa é que venha a cair mais ainda nos próximos anos, enquanto a expectativa da energia convencional é de subir ainda mais o preço. Em muitos Estados do país, se verificarmos os preços pagos pelos consumidores em suas contas de luz, a energia solar fotovoltaica já é mais barata hoje.
Além disso, a energia solar conta com uma vantagem adicional em relação às outras fontes: é gerada exatamente onde é consumida, ou seja, nos telhados das casas, comércios, depósitos, ou edifícios, não necessitando uso de linhas de transmissão, o que se convencionou chamar de geração distribuída.
Outro problema era escala competitiva, praticamente já superado. Só no ano de 2010 já se chegou a mais de 13 GW instalados no mundo, podendo chegar este ano a 25 GW, quase o dobro do ano passado.
Faltaria ainda a questão da regulamentação, também prestes a ser superada. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) está neste momento com uma audiência pública em curso que, entre outras coisas, irá regulamentar até o final do ano a chamada "conexão no grid", ou seja, permitirá a um consumidor final de energia solar fotovoltaica até 1 MW que a energia por ele gerada durante o dia, por exemplo, seja descontada do seu consumo total ao final do mês. Isso facilitará em muito a ampliação do mercado consumidor de energias renováveis, entre elas a solar fotovoltaica. O próximo passo, aguardado pelo mercado com grande expectativa, seria a realização de um primeiro leilão de energia solar fotovoltaica no Brasil, atraindo com isso toda uma cadeia produtiva de alta tecnologia para nosso país.
Marcelo del Pozo/Reuters/Marcelo del Pozo/Reuters
Esses fatores somados abririam uma oportunidade histórica para um segmento de produção de energia que, além de totalmente sustentável, ajudaria no encaminhamento de problemas que vem se acumulando no setor energético.
O crescimento da energia hidráulica em grandes usinas está perto do seu limite, enfrentando problemas ambientais e exigindo pesados investimentos e longos prazos de maturação, além de demandar investimento em novas linhas de transmissão.
A região Norte do Brasil, chamada de sistema isolado pelo fato de não ser possível levar energia por meio de linhas de transmissão, é mantida com energia a diesel e carvão, sistema pago por todos nós graças a um adicional em nossas contas de luz. Ora, uma parte considerável desse consumo poderia ser substituída por energia solar.
A água potável de poços artesianos no interior de estados do Nordeste não pode ser bombeada pelo custo que demandaria levar uma rede elétrica até eles. Alguns poucos painéis solares resolveriam essa demanda. Foram levantados, somente em um estado, mais de 80 mil poços artesianos com água potável.
As grandes redes de supermercado, em especial no Nordeste, gastam recursos enormes para resfriar suas lojas, quando poderiam implantar em todas elas uma cobertura de painéis solares, que além de resfriá-la naturalmente estaria gerando energia. São milhões de metros quadrados de coberturas desperdiçadas ao longo de todo país.
Os próprios parques eólicos, que hoje estão transformando a paisagem de algumas regiões do país, poderão ser consumidores de painéis solares nas áreas em que estão instalados. São centenas de hectares de terrenos não aproveitados que poderiam estar gerando energia durante o dia, já que o vento normalmente sopra durante a noite, dando assim mais retorno à linha de transmissão já instalada. É o que poderíamos chamar de energia renovável "flex", sol durante o dia e vento durante a noite.
Como podemos ver, são imensas as oportunidades que se abrem neste imenso país banhado de sol por todos os lados. O governo está dando os primeiros passos, sinalizando que é o momento de arregaçarmos as mangas para transformar o Brasil em um player mundial no setor de energia solar fotovoltaica. As próximas gerações nos agradecerão por isso.
Emerson Kapaz é empresário, presidente da Ecosolar do Brasil S/A e sócio da Alek Consultoria Empresarial.

GE montará fábrica de turbina para eólica na BA

Marcelo Soares, presidente da GE Energy para América Latina: nova fábrica poderá ter ampliação no futuro

De olho nos 52 parques eólicos previstos para o Estado nos próximos anos, a GE decidiu investir R$ 45 milhões em uma nova fábrica de aerogeradores na Bahia.
Inicialmente, serão produzidos 200 equipamentos por ano a partir de meados de 2013. Mas a capacidade poderá subir dependendo do volume de contratos que serão fechados no futuro. "Nunca planejamos uma fábrica limitada à produção inicial. Sempre deixamos espaço para crescimento", informa Marcelo Soares, presidente na América Latina da GE Energy, braço na área de energia do grupo industrial de origem americana.
A assinatura do protocolo de intenções com autoridades do governo baiano está prevista para a segunda-feira. Ainda falta definir o local da fábrica, mas a GE tem se debruçado sobre possibilidades na Região Metropolitana de Salvador ou no polo industrial de Camaçari, o qual já vem atraindo grandes fabricantes de turbinas eólicas.
A investida dessas fabricantes na Bahia começou este ano, com o início das operações da espanhola Gamesa em Camaçari. Em novembro, será a vez da francesa Alstom começar a montagem de aerogeradores no município, após investimento aproximado R$ 50 milhões em sua primeira fábrica no Nordeste.
Além do crescimento no número de projetos de energia gerada pelo aproveitamento dos ventos no país, os fabricantes são atraídos por vantagens em logística, dada a proximidade de instalações portuárias.
Mas, como informa a GE, estímulos fiscais também estão sendo determinantes na escolha. Sem dar detalhes, a direção da filial da empresa na América Latina informa que recebeu os mesmos benefícios tributários que seus concorrentes tiveram para abrir operações no Estado.
Levar o projeto para o Rio Grande do Norte, onde diversos projetos eólicos estão sendo executados, ou mesmo ampliar as fábricas existentes foram opções consideradas pela GE antes de levar o projeto para a Bahia.
A expectativa do grupo é enfrentar um ambiente de competição desafiador, já que diversos fabricantes globais tentam aproveitar o movimento de diversificação da matriz energética do país. Para encarar a disputa, a GE diz que está trazendo tecnologia de última geração em turbinas.
Antes de Gamesa e Alstom, a Wobben Windpower, em Sorocaba (SP), e a argentina Impsa, em Suape (PE), já tinham operações de turbinas eólicas consolidadas no Brasil. A gigante alemã Siemens também anunciou planos de reforçar a montagem desses equipamentos em território brasileiro, onde tem contratos para instalação de 136 turbinas em 12 parques - um dos clientes é a Tractebel.
A GE, que já monta as turbinas em uma fábrica em Campinas (SP), prevê instalar aproximadamente 700 aerogeradores no mercado brasileiro entre 2011 e 2012, incluindo contratos dos primeiros parques eólicos da Bioenergy no Rio Grande do Norte. No mundo, já tem instaladas 17 mil unidades.
O grupo diz que planeja usar recursos próprios para custear os investimentos na fábrica baiana, na qual, estima, serão criados 80 empregos diretos. Soares informa ainda que o projeto poderá ser greenfield - aqueles que são construídos a partir do zero - ou brownfield, em que é efetuada ampliação de alguma instalação já existente.
A vantagem da segunda opção, lembra o executivo, seria acelerar o ritmo do empreendimento, que começará a ser erguido a partir de meados do ano que vem. "Podemos aproveitar algum prédio ou alguma fábrica vazia por lá e fazer reforma e adaptação", assinala o CEO. "Vamos optar pelo o que for mais interessante", acrescenta.

As empresas erram quando decidem se livrar dos sábios

Trabalho diariamente com CEOs e executivos de primeiro nível nas empresas e ainda me assusto quando vejo a forma como os profissionais mais seniores encerram suas carreiras no mercado de trabalho tradicional. Ou melhor, a forma como eles são quase expulsos das corporações.
De repente, quando completam por volta de 60 ou no máximo 65 anos de idade, eles deixam de servir para liderar as empresas. O argumento é que a organização precisa de oxigênio, de gente nova, e que a falta de renovação no primeiro nível entope a estrutura de cima para baixo.
Por um lado faz sentido. É fato que pessoas mais jovens são importantes para oxigenar as empresas. Mas eu penso que, se os 40 anos de hoje equivalem aos 20 de duas décadas atrás, um executivo de 60 anos também deveria equivaler ao de 40. Infelizmente, impera ainda a mentalidade de que uma pessoa de 60 anos está perdendo energia e tende a estar defasada em relação ao que o mercado exige atualmente dos grandes líderes quando comparados aos mais jovens.
O que eu observo, entretanto, é que existem muitos profissionais que, a esta altura da vida, estão no seu auge da produção, conhecimento e energia. E, ao contrário do que se diz, são extremamente atualizados, flexíveis e bem informados. Apesar de oriundos de outra geração, são pessoas com uma capacidade enorme de agregar valor por seu conhecimento, ampla e variada experiência e rede de contatos.
A reflexão que eu provoco é: será que a idade deveria ser o limitador para essa transição? A cada dia que passa me convenço que deveríamos avaliar a possibilidade de desenvolvermos um olhar mais individualizado nesse processo. Conforme definiu Robert Critchley no livro "Reavaliando Sua Carreira" (Ed. Campus, 2002), cada pessoa é única e o sucesso profissional conquistado, independente de idade, tende a ser um resultado de sua flexibilidade ou inflexibilidade no trabalho.
No fundo, as organizações têm muito a amadurecer quando o assunto é liderança e sucessão. Fala-se muito, o discurso é crescente, mas na prática há um longo caminho a percorrer. Outro aspecto que me chama a atenção é que, preocupadas em resolver seus problemas de curto prazo durante a fase de transição dos seus principais executivos, a maioria das empresas não se foca em reter o conhecimento e as relações que seu principal líder possuía.
Os gestores de RH e, quando existem, os comitês responsáveis pela sucessão, deveriam se preocupar em realizar uma transição de longo prazo para que esse conhecimento seja transmitido ao sucessor. Além disso, a renovação não significa ignorar os pontos positivos de quem está saindo.
Quando não é possível contar com esse tempo de transição, a organização tem ainda outras possibilidades de se aproveitar desse conhecimento e experiência mantendo o profissional de alguma forma próximo da companhia como membro do conselho de administração ou consultor. O único problema ao transformar um CEO em presidente do conselho -movimento muito comum no mercado -, é que os papéis são mais difíceis de serem separados e muitas vezes o ex-CEO tem dificuldades em deixar a operação, o que não é positivo para a organização nem para o novo líder.
O importante é que tudo aquilo que fora acumulado pelo profissional nos diferentes ciclos de carreira ao longo da vida e os seus pontos fortes identificados depois de tantos anos de janela possam ser agregados novamente, só que em outra formatação. O conhecimento adquirido precisa ser aproveitado não apenas pelo sucessor, mas deve ser de fácil acesso a todos os que se beneficiariam, de alguma forma, dessa sabedoria. Os sábios deveriam poder ser eternamente consultados pelo povo.
Vale o questionamento por parte dos profissionais experientes: "Quais investimentos que fiz nessa minha evolução que me dão a licença de exercer o papel de sábio, de forma a ajudar as novas gerações a fazer reflexões importantes no dia-a-dia?"
Com as mudanças que vêm ocorrendo no meio empresarial, estamos perdendo os sábios e os contadores de histórias - pessoas que sempre tiveram papel fundamental na transmissão dos valores e da cultura organizacional. Não podemos nos livrar dos sábios! Se você encontrar um deles pelo caminho, não o deixe ir embora assim tão fácil.
Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de Recursos Humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Investimento da Odebrecht em Angola chega a US$ 1 bilhão

Depois de fortalecer presença na capital Luanda, companhia cresce no interior angolano

Companhia inicia a expansão para cidades do interior e estuda a possibilidade de entrar no segmento de média e baixa renda, caso surjam opções de financiamento para o setor.
A Odebrecht está entrando em uma nova fase de desenvolvimento no mercado imobiliário angolano, no qual estreou há 15 anos.
Prestes a alcançar a marca de US$ 1 bilhão em investimentos, a grande maioria deles concentrados na capital, Luanda, a construtora brasileira começa agora a desenvolver projetos no interior e estuda entrar nos segmentos de média e baixa renda.
"É uma das áreas mais promissoras", diz Felix Martins, diretor da área na Odebrecht Angola.
Os dois projetos mais recentes lançados pela companhia foram a quarta etapa do condomínio Belas Business Park, o primeiro complexo empresarial e residencial de Angola, com área construída de 150 mil metros quadrados e 700 unidades imobiliárias de apartamentos e escritórios, em Luanda; e o Terraços Lobito Privilege, na província de Benguela. Cada um deles é orçado em US$ 100 milhões.
Mas a Odebrecht Angola estuda também projetos em outras províncias. Apesar de Martins não especificar em quais, não são tantas as alternativas: Soyo,Ambriz, Malanje, Porto Amboin, Huambo, Luena, Lubango, Menongue e Namibe estão entre as principais cidades do país e são candidatas.
De modo geral, porém, estes são empreendimentos voltados ao público de alto poder aquisitivo do país. De acordo com Martins, a investida nos segmentos de média e baixa renda, ainda que em estudo, depende do aumento da oferta de linhas de financiamento à população. Um problema que até recentemente travava mercados bem mais robustos, como o brasileiro.
A conta de US$ 1 bilhão em investimentos no país inclui tanto empreendimentos residenciais quando empresariais. A entrada da Odebrecht no mercado imobiliário de Angola aconteceu em 1997 com o desenvolvimento de um novo centro urbano, na região de Talatona, parte sul de Luanda.
Lá, a companhia brasileira ergueu seu primeiro empreendimento imobiliário no país africano, batizado Condomínio Atlântico Sul. Entre 2004 e 2005, com a economia local aquecida pelas exportações do petróleo, a Odebrecht resolveu apostar em um shopping center, o Belas, que tornou-se um projeto âncora na região.
A partir daí, seguiram-se empreendimentos como o Arte Yetu Residencial, com 16 torres e 76 unidades imobiliárias; o Morada dos Reis, com duas torres e 64 unidades; e condomínios de alto luxo, como o Vivendas São Paulo de Luanda, com 24 unidades de 494 metros quadrados cada, e o Mansões do Vale, também com 24 residências, de 408 metros quadrados cada.
"O ingresso no mercado imobiliário foi um movimento natural", afirma Martins. Há 27 anos em Angola, a companhia brasileira viveu parte da guerra civil que destruiu a infraestrutura do país. Com a pacificação, a partir de 2002, partiu para consolidar sua posição participando dos esforços de reconstrução, embalados por exportações de petróleo e minérios, como ouro.
Hoje, a Odebrecht atua em uma série de outros setores da economia local, como infraestrutura, mineração, energia e óleo e gás. A área imobiliária representa 8% da receita total no país, onde tem em andamento cerca de 20 contratos.

Vale Fertilizantes planeja investir US$ 15 bi

A necessidade de diversificação de portfólio mobiliza a Vale. Segundo o diretor de operações da Vale Fertilizantes, Marcelo Fenelon, a companhia vai investir US$ 15 bilhões nos próximos dez anos na produção de fosfato e potássio, usados na produção de fertilizantes.
Segundo o executivo, os aportes permitirão à companhia passar da sexta para a segunda posição mundial entre os produtores de rochas de fosfato e do 14º para o quinto lugar no mercado de potássio.
Além de buscar menor dependência de minérios demandados pela área de infraestrutura, a estratégia da empresa está apoiada nas previsões de aumento da demanda por alimentos.
A população mundial deve crescer de 7 bilhões de habitantes para 9,7 bilhões até 2050, e 1,5 bilhão de pessoas migrarão para a classe média nos países desenvolvidos.
"E 50% da oferta adicional de alimentos no mundo até 2050 deve vir do Brasil", disse Roberto Busato, vice-presidente da Mbac Fertilizantes, que coloca em operação em 2012 um projeto integrado de fertilizantes (mina e fábrica de fosfatados) em Arraias, no sul do Tocantins. A empresa investiu cerca de R$ 400 milhões. (TF)

Para produtores de cana, recuo foi circunstancial

Apesar da frustração com a safra deste ano (2011/2012), a indústria sucroalcooleira do Brasil confia na capacidade de atender a demanda crescente de consumo de açúcar e álcool pelo menos até 2020. Dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Única) apontam para uma moagem de cana, na safra atual, de 533,50 milhões de toneladas, redução de 6,16% em relação a março e queda de 4,21% sobre o valor final da safra 2010/2011).

A redução foi circunstancial, avalia a Única. "Nossa projeção para 2019/2020 é alcançar um patamar de 1 bilhão de toneladas de cana para moagem. Para completar essa produção até 2020 o setor precisa fazer investimentos no campo de R$ 80 bilhões. Assim teremos condições de atender o mercado interno com certa tranquilidade e até termos etanol para exportar", prevê Sérgio Prado, representante da Única em Ribeirão Preto, maior região produtora de cana do Estado de São Paulo.
Na avaliação dos usineiros, o menor volume se deve à falta de renovação do canavial nos últimos anos, associada à redução nos tratos culturais em algumas regiões, o que reduziu a produtividade, pois o canavial mais velho possui baixo rendimento. Esse aspecto, segundo a Única, já havia sido previsto e incorporado nas primeiras estimativas de safra da entidade.
Mas um fator que pesou forte foi o longo período de estiagem observado entre abril e agosto de 2010, aliado ao "veranico" em maio. Segundo dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a produtividade agrícola da área colhida até este momento ficou em 76 toneladas por hectare, queda de 19,66% em relação ao mesmo período de 2010.
Para os empresários do setor, o cenário impõe desafios adicionais, mas não inibe planos de crescimento. "A indústria sucroalcooleira precisa investir R$ 80 bilhões para expansão da produção de cana e vai buscar financiamentos para isso. Do total, 60% serão provenientes de capital próprio e o restante de empréstimos que vamos buscar em bancos de fomento", diz Prado.
Com 24 unidades produtoras de açúcar, etanol e bioenergia, e faturamento estimado de R$ 50 bilhões, a usina Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, não revela o investimento que pretende realizar para atender a demanda potencial de açúcar e etanol, mas tampouco contém o entusiasmo.
"A Raízen conta com um ousado plano de expansão para os próximos cinco anos, que elevará a capacidade atual de moagem de 65 milhões de toneladas de cana para 100 milhões", afirma o vice-presidente Pedro Mizutani. Segundo ele, esse plano de expansão ocorrerá por meio da combinação de diferentes medidas para maximizar a produção. "Uma delas ocorrerá por meio da expansão das usinas já existentes. E também haverá os novos projetos (os chamados greenfields), além de aquisições", diz.
Apesar das expectativas otimistas do mercado, o consumo deve sofrer com falta de etanol já no médio prazo. "A estimativa é que o percentual de veículos flex rodando com etanol vai cair para 45%, ante os 65% atuais", diz Arnaldo Corrêa, gestor de riscos e diretor da Archer Consulting, empresa especializada em gerenciamento de riscos em commodities agrícolas.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Petrobrás importa 600 mil barris de gasolina para demanda interna

Estatal deve encerrar 2011 com média diária de 30 mil barris importados de gasolina

O diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, disse nesta segunda-feira, 26, que a companhia já importou uma segunda carga de 600 mil barris de gasolina, para suprir a demanda interna. Segundo ele, a Petrobrás deverá encerrar 2011 com uma média diária de 30 mil barris de gasolina importados, ante uma média de 7 mil barris por dia no ano passado. No primeiro semestre, já haviam sido importados 2,5 milhões de barris, ante 3 milhões de barris no ano passado.

Além do crescimento do consumo do combustível - em torno de 10% sobre o volume vendido ano passado - há ainda a redução da mistura de anidro na gasolina - de 25% para 20% - que deverá pressionar ainda mais a demanda a partir do dia 1º de outubro.

"Além destas duas cargas acredito que vamos precisar importar bem mais", disse o diretor em entrevista realizada há pouco, logo após ele participar de evento que marcou a adesão dos municípios localizados no entorno do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) ao Convênio Excelência na Gestão de Investimentos.

Assinado entre a Petrobrás, a Caixa Econômica Federal, o Ministério das Cidades e a Fundação Getúlio Vargas, o convênio busca viabilizar a implementação de projetos de infraestrutura nos municípios da região, que serão diretamente impactados pelas obras do Comperj. Segundo o diretor, o convênio visa preparar os municípios para apresentarem projetos pertinentes para aproveitar os recursos destinados à infraestrutura. Inicialmente, a Caixa Econômica Federal conta com recursos de R$ 1,2 bilhão para estas obras.

Corte de 1 ponto na Selic entra em pauta

O papo no mercado de juros futuros é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode acelerar o ritmo de corte da Selic para um ponto percentual no encontro de outubro.

Os contratos de juros futuros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) ilustram bem esse quadro.
Antes eram a crise, o dólar que parou de subir e os motivos técnicos que explicavam o recuo nas taxas futuras.
Taxa de juro real cai a 4,5% e faz nova mínima histórica
Agora é tudo isso e mais o noticiário dando conta de que as autoridades brasileiras que estiveram nas reuniões realizadas nos Estados Unidos voltaram mais assustadas com a gangrena do cenário externo.
As taxas voltaram a derreter ontem, e o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2013 fez nova mínima histórica a 10,24%, queda de 0,22 ponto percentual.
Na sexta-feira, as taxas futuras já tinham desabado em cima da tese de que o dólar forte não atrapalhará a inflação, pois o governo já se mostrou disposto a conter movimentos atípicos de alta de preço da moeda americana.
A novidade na segunda-feira foi a difusão da percepção de que quem voltou de Washington teve uma "confirmação" da tese de que a crise externa é cada vez mais alarmante.
Com isso, o plano de voo que trabalha com redução de juro básico e deflação externa fazendo se sentir aqui fica mais do que reforçado.
Por ora, no entanto, a piora externa não melhorou a inflação presente e prospectiva.
O Focus mostra Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acima do teto da meta de 6,5% em 2011 e em 5,52% no encerramento de 2012.
Quando o BC cortou a Selic em 31 de agosto, o Focus mostrava inflação oficial de 6,31% para o ano corrente e de 5,20% para o fim do próximo ano.
Nesse período, o que caiu foi o juro real, aquele que tira a inflação da conta e que realmente importa na tomada de decisão entre poupança e investimento.
A queda nas taxas de mercado e a piora nos prognósticos de inflação levam a taxa real de juro para nova mínima histórica de 4,50% ao ano.
A saber. O cálculo considera o swap 360 dias de 10,52% e a previsão em 12 meses para o IPCA, que subiu a 5,76%. Antes da última reunião do BC essa taxa real estava em 5,48%.
Para alguns participantes do mercado, o "modo turco" de política monetária foi ativado.
O juro vai para baixo e o câmbio será balizado pelas atuações do governo.
Fica em aberto se a inflação por aqui pode testar os dois dígitos como na Turquia em 2008 para depois recuar.
Por lá, o índice de preços ao consumidor ficou ao redor de 6,5% em 2009 e 2010, mas está estimado em 8% para 2011.
Novas pistas sobre como o BC enxerga o cenário podem vir hoje, com o discurso do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.
Ainda na semana o Relatório de Inflação, que pode ser decisivo para o mercado fechar as apostas sobre o rumo da Selic.
Olhando para o mercado externo, o dia foi de firme alta nas bolsas de valores.
Os analistas falavam em "esperança" de que o Banco Central Europeu (BCE) adote novas ações para conter a crise de endividamento soberano.
De concreto mesmo, o que se vê são os CDSs de França e Alemanha rondando máximas históricas. Os "Credit Default Swaps", espécie de seguro contra calotes, vêm em trajetória ascendente desde que o BCE passou a comprar títulos de países periféricos.
Na época, um estrategista notou que ao fazer isso, o BCE tirava o risco antes concentrado em países periféricos como Grécia, Espanha, Itália, Irlanda e Portugal e o trazia para o centro da zona do euro.
Os CDSs confirmam essa história e a mesmíssima coisa deve ocorrer se virar fato a ideia de se fazer um "bônus comum europeu" ou mesmo de se reforçar o Fundo de Estabilização Financeiro da Europa (EFSF, na sigla em inglês).
O que se pode concluir diz esse mesmo estrategista é que a Alemanha e a França, principalmente, vão resgatar as economias que estão em crise, o que pode ter resultado negativo para a zona do euro.
http://www.valor.com.br/sites/default/files/crop/imagecache/media_library_small_horizontal/1/17/718/470/sites/default/files/gn/11/09/arte27fin-101-col_ec-c2.jpg
"A disparada dos CDSs da França e Alemanha indica que haverá uma piora do fundamento desses países ao socorrer os outros que se encontram perto da falência. E o risco embutido nisso é de a região como um todo ser puxada para o centro da crise", conclui.
No câmbio local, o dólar comercial caiu ontem 1%, subiu mais de 2% e terminou o dia com leve baixa de 0,38%, a R$ 1,822 na venda.
Atenção à movimentação dos estrangeiros na BM&F. Na semana passada, esses agentes compraram mais de US$ 7 bilhões em contratos de dólar futuro.

Governo fica mais pessimista com crise externa

De volta dos EUA, Mantega avaliou, juntamente com a presidente Dilma, que o diagnóstico da crise financeira mundial mudou e que pode exigir a adoção de novos ajustes na política econômica


O governo fez uma reunião "tensa" ontem no Palácio do Planalto. De volta dos Estados Unidos, onde se encontraram com autoridades de outros países e com empresários, a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliaram que o diagnóstico da crise financeira mundial mudou. A situação está pior do que se esperava e pode exigir a adoção de novos ajustes na política econômica. O mercado já começa a apostar que o Banco Central (BC) poderá acelerar a queda dos juros.
Dilma e Mantega retornaram pessimistas e com a expectativa de que a crise na Grécia pode ter um desfecho ainda esta semana, com consequências imprevisíveis sobre o sistema financeiro europeu e, portanto, sobre a economia mundial. A presidente conversou com presidentes de vários países e com investidores e empresários, em Nova York.
Já o ministro Mantega participou da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington. Conversou com ministros das Finanças e banqueiros centrais. Durante a semana passada, Dilma e Mantega trocaram telefonemas e por tudo o que ouviram de interlocutores qualificados não descartam a oficialização de uma moratória na Grécia ainda esta semana.
"Algo deve acontecer. A Grécia está por poucos dias", disse uma alta fonte oficial. O governo brasileiro "está a postos" para agir e, se necessário, adotará medidas conforme o desenrolar da crise na Zona do Euro e suas consequências sobre o sistema financeiro europeu, assegurou a fonte.
Até a semana passada, a expectativa do governo era que haveria um agravamento da crise lá fora, mas sem ruptura, como a que ocorreu em meados de setembro de 2008, quando o banco americano Lehman Brothers quebrou. A nova rodada da crise confirmaria o desaquecimento na economia mundial, refletindo-se numa contração adicional àquela que a economia brasileira já vem enfrentando, mas com os mercados funcionando normalmente.
Foi com base nesse cenário que o governo decidiu aumentar o superávit primário das contas públicas em R$ 10 bilhões (0,25% do PIB) em 2011 e comprometer-se com o cumprimento de meta cheia de superávit também entre 2012 e 2014. Foi também com base nesse cenário que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, no fim de agosto, a taxa básica de juros (Selic), de 12,5% para 12% ao ano, num movimento que surpreendeu o mercado.
Hoje, segundo avaliações colhidas em Washington, a realidade se mostra mais grave, o que pode obrigar o governo a adotar novas medidas. Por enquanto, não se definiu ainda o que será feito, mas Brasília se colocou em estado de alerta. No mercado, já se fala que o Copom poderá reduzir a Selic, na reunião de 19 de outubro em 0,75 ponto percentual ou até mesmo em 1 ponto.
Na ata da última reunião, o Comitê sinalizou corte de 0,5% ponto percentual dos juros em outubro. A piora do cenário internacional está levando o mercado a apostar, no entanto, num movimento mais forte por parte do Copom. Hoje, o presidente do BC, Alexandre Tombini, falará à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Seu depoimento é aguardado porque ele deve indicar como está vendo a situação mundial e sinalizar futuras ações do BC.
Tombini retornou de Washington com a certeza renovada de que não errou no diagnóstico que levou o Copom a cortar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual. Ao contrário, as conversas das autoridades monetárias internacionais e altos representantes do mundo das finanças, no fim de semana, só aumentaram o pessimismo sobre o futuro da crise na Zona do Euro e sobre o fraco dinamismo da economia americana.
Essa impressão foi reforçada ontem pela decisão do presidente do banco central de Israel, Stanley Fischer, de reduzir a taxa de juros de 3,25% para 3% ao ano, mesmo diante do fato de a inflação do país estar acima da meta oficial - 3,4% em 12 meses, face à meta de 1% a 3%. A medida surpreendeu analistas em todo o mundo, mas, nas reuniões do fim de semana em Washington, Fischer, um ex-dirigente do FMI considerado ortodoxo, teria relativizado a preocupação com a alta inflacionária neste momento.
"Isso mostra o quão preocupados estão os banqueiros centrais com o que eles ouviram em Washington. Fischer alegou que no ano que vem pode ocorrer deflação e não inflação. Ele deixou claro, nos debates, que a questão da inflação neste momento é irrelevante", revelou ao Valor um participante dos encontros na capital americana.
No caso brasileiro, prossegue a convicção do BC de que a inflação em 12 meses cairá dois pontos percentuais entre outubro deste ano e abril do ano que vem, ficando mais próxima da meta de 4,5%. O quadro, no entanto, é incerto para se vislumbrar o que vai ocorrer após esse período.

Nova geração de investidor dá mais força à inovação

Saul Singer, escritor e especialista em inovação: em Israel, país campeão em empresas novatas, mercado é menos avesso ao risco que no Brasil


Uma mudança no mercado brasileiro está tornando o cenário mais atrativo para as empresas de inovação nascentes. Na cadeia de investidores, a figura do investidor-anjo - empresas ou pessoas físicas que investem pequenas quantias em companhias iniciantes - começa a se tornar mais comum. Em alguns casos, são os antigos donos de empresas novatas, que se mostraram bem-sucedidas e acabaram compradas, que estão usando parte desses ganhos para financiar outras "startups".
O mesmo movimento foi observado há algumas décadas em grandes polos de inovação como o Vale do Silício, na Califórnia, e a cidade de Boston, diz Leslie Charm, professor de finanças para empreendedores do Babson College, nos Estados Unidos. "O cenário de inovação no Brasil mudou rapidamente nos últimos cinco anos e a tendência é que surjam novos investidores-anjos no curto prazo", afirma o especialista. O Babson College fica em Boston, onde se situam milhares de empresas novatas criadas principalmente a partir de projetos nascidos no Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Para Charm, o fato de empresários brasileiros investirem em companhias nascentes transmite ao mercado internacional uma impressão de confiança nos projetos de inovação existentes. "Existe um grupo de cerca de 75 investidores que buscam projetos de inovação pelo mundo. O cenário atual do país coloca as 'startups' brasileiras na mira desses investidores", afirma o professor.
Donos de ex-novatas bem-sucedidas, como Romero Rodrigues, do BuscaPé, investem em projetos de terceiros
Alguns desses novos investidores-anjos fizeram aportes recentemente. O caso mais emblemático no setor de tecnologia é o de Romero Rodrigues, um dos fundadores do site comparador de compras BuscaPé, que foi adquirido em 2009 pelo grupo sul-africano Naspers, por US$ 342 milhões, o valor mais alto já pago por uma novata brasileira de internet. Rodrigues segue como executivo-chefe do BuscaPé, mas investe parte dos seus ganhos em empresas nascentes. A mais recente foi a Shoes4You, loja virtual de sapatos femininos, lançada neste mês.
Outro caso é a Movile, empresa de serviços para a área de telecomunicações, como serviço de marketing e aplicativos para celulares. A empresa foi fundada em 2000 e, dois anos depois, recebeu aporte da Rio Bravo Investimentos. Em 2008, o Naspers entrou como investidor para acelerar o processo de internacionalização. Em 2010, a empresa fundiu as operações com a Cyclelogic e expandiu sua atuação para oito países na América Latina. Fabrício Biosi, executivo-chefe da Movile, diz que a receita cresceu 20 vezes em três anos, chegando a R$ 30 milhões em 2010.
Biosi faz parte de um grupo de 50 empresários de Campinas, que lançaram em janeiro o Inova Ventures Participações (IVP), um fundo de R$ 2,5 milhões voltado para financiar "startups". Também foi observado em Campinas um movimento de empresas que destinam recursos para empregados criarem suas startups. Companhias como CI&T, Concrete Solutions e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) reservam de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões para esses investimentos, que já beneficiaram 22 projetos em um ano.
Os novos investidores somam-se a grupos que já investiam em companhias iniciantes, como Gávea Angels, Bossa Nova Investimentos, Floripa Angels e Antera Gestão de Recursos. Charm diz que o surgimento de novos investidores, associado a um quadro de "startups" que operam em parceria com universidades deve contribuir para a formação de grandes polos de inovação. "O Brasil pode se ter o seu Vale do Silício, à medida que a aversão ao risco diminui no país", afirma.
Saul Singer, especialista em inovação e coautor do best seller "Nação Empreendedora: O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensinou", vê no mercado brasileiro um cenário similar ao da Europa, onde os investidores ainda preferem opções mais conservadoras que uma "startup". Os juros altos, afirma, diminuem o interesse de investidores em negócios mais arriscados.
"Há uma tendência no Brasil a pensar que empreendedores que fecham a empresa são fracassados, mas a falha é normal", diz. Em Israel, que tem maior proporção de "startups" em relação ao total de empresas, com 3 mil a 4 mil empreendimentos, mais de 40% das companhias novatas fecham antes de dois de existência, como no Brasil. "A diferença é que, em Israel, há 60 anos os empresários estão se dispondo a correr riscos."