terça-feira, 7 de junho de 2011

Mantega mais perto de desvalorizar o real

Ministro da Fazenda dá pistas que política de câmbio vai mudar; bíblia do capitalismo global, Financial Times aposta que governo terá de depreciar moeda brasileira; pressões de multinacionais se ampliam
A política do Governo Federal para o câmbio está prestes a mudar radicalmente. A desvalorização do real entrou no radar do Ministro da Fazenda, Guido Mantega – a depreciação da moeda brasileira já está sendo considerada por órgãos respeitados da imprensa internacional como uma medida inevitável. Há alguns dias, o Ministro mandou o recado: o câmbio flutuante no curto prazo ficou inviável. A frase, que parece apenas uma reclamação, na verdade é um típico balão de ensaio. Esse é um artifício utilizado pelos governantes sempre que há a necessidade de sentir a reação do mercado com uma mudança drástica de rota. Desta vez, é a alteração no sistema cambial brasileiro. “Temos que surpreender. As medidas são sempre uma novidade”, disse o Mantega na manhã de hoje durante a divulgação do PIB.
O dólar não para de se desvalorizar frente ao real. Está difícil manter essa relação acima de R$ 1,60, o que na visão do governo tem prejudicado o crescimento do País. Nem as medidas mais recentes conseguem conter o movimento ladeira abaixo da moeda americana. A alta da taxa de juros, que chegou a 12% ao ano, não freou o consumo nem bloqueou o apetite dos investidores estrangeiros que, se não compram ações das empresas brasileiras, abocanham os títulos da dívida nacional, que paga o maior prêmio entre os emergentes. E quanto mais dólares entram, mais forte fica o real.
A saída para o Governo seria forçar a desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar. Quando esse movimento acontecerá? Tudo vai depender da coragem da presidente Dilma Rousseff assumir que o câmbio flutuante não serve para o Brasil. Guido Mantega tem jogado a isca desde o início do ano. O Ministro brasileiro sugeriu a adoção da moeda flutuante para todos os países que compõem o G-20. Isso ajudaria a manter o equilíbrio de forças e corrigir as distorções que estão inchando o valor do real. Como dificilmente as economias mais avançadas adotarão essa sugestão, a ação está nas mãos da presidenta brasileira. O Financial Times, uma das bíblias das finanças mundiais, tem apostado que essa é a única saída para o que eles chamam de “bolha Brasil” não estourar. Nos últimos meses, o jornal inglês tem colocado pressão em uma rápida decisão das autoridades brasileiras. Inclusive repercutindo com empresários de multinacionais. O presidente da Siemens, Adilson Primo, por exemplo, afirmou que quanto mais próximo o real ficar de 1,5 por dólar mais difícil é manter a competitividade.
Forçar a depreciação do real frente ao dólar parece ser a saída para o PIB brasileiro continuar em crescimento nos próximos anos e a inflação não afetar o desempenho da economia nacional. Mais importante: interromper o peso cada vez maior do Brasil na formação do PIB mundial, o que leva naturalmente o real a se aproximar da cotação de R$ 1 para US$ 1. De acordo com estudo da consultoria Austin Rating, o PIB dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) passará de 11,8% em 2010 para 22,4% em 2020. Só o Brasil saltará de 2,2% para 3,6% no mesmo período. Isso levará as moedas desses países a ficarem cada vez mais forte, se não houver qualquer medida para interromper as valorizações. “O real tende a se valorizar mais que outras moedas, naturalmente. A tendência nos próximos anos é a cotação se aproximar de R$ 1 para US$ 1”, diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin. Em conversa privada com gestores de investimento, um ex-diretor de política monetária do Banco Central disse que falar em patamar ideal de taxa de cambio é insanidade, mas há algum tempo a moeda brasileira está extremamente valorizada. Medidas precisam ser tomadas. O recado está dado?

LDC é impedida de terceirizar colheita

Justiça proíbe Louis Dreyfus de utilizar mão de obra indireta na colheita mecanizada e no transporte de cana

Terceirização foi uma manobra para ter mão de obra barata, afirma liminar; empresa diz que recorreu da decisão

A Justiça do Trabalho impediu a empresa Louis Dreyfus Commodities Bioenergia S/A, de Jaboticabal, de terceirizar a mão de obra para a colheita mecanizada e o transporte da cana-de-açúcar.

A decisão liminar foi concedida numa ação proposta pelo Ministério Público do Trabalho, que identificou a suposta fraude em esquemas de terceirização. A empresa afirma que já recorreu.

Segundo a decisão da Justiça, a partir da citação, a usina deve contratar diretamente a mão de obra destinada ao setor de colheita mecanizada e transporte. A usina confirmou ter sido citada.
Segundo as investigações da Procuradoria, a empresa transferiu todo o seu maquinário para empregados que manifestaram interesse em abrir empresa e manter contrato exclusivo com a empresa no corte e no transporte.
O contrato previa o repasse de parte dos lucros à usina como pagamento pelo maquinário. Porém, os trabalhadores que adquiriram o equipamento não dispunham de estrutura administrativa e condições financeiras para manter a equipe contratada.

A situação, de acordo com a Procuradoria, provocou o surgimento de diversas irregularidades trabalhistas.

Entre elas estão atrasos salariais, jornadas de trabalho excessivas -cerca de 14 horas por dia, sem folgas- e atos discriminatórios contra empregados que procuraram a Justiça.

De acordo com o texto da liminar, o processo de terceirização adotado pela empresa é "uma manobra ilegal para a contratação de mão de obra barata, com consequente fraude de direitos trabalhistas, tendo por finalidade a redução dos custos do empreendimento".

Em nota, a Louis Dreyfus informou que tomou as providências necessárias para o cumprimento da decisão logo após ser notificada, mas que no seu entendimento a contratação de prestadores de serviços agrícolas é lícita.

DISTRIBUIÇÃO METALIZADA

A CBA (Companhia Brasileira de Alumínio), divisão da Votorantim Metais, inaugura na próxima semana seu novo centro de distribuição, em Jundiaí (SP).
O espaço, que terá 11 mil metros quadrados, armazenará até 6.000 toneladas de chapas, bobinas, folhas e perfis de alumínio.

"A localização do centro nos aproximará das principais empresas consumidoras e de importantes mercados como bens de consumo, construção civil, embalagens e transportes", diz João Bosco Silva, diretor-superintendente da Votorantim Metais.
O projeto receberá produtos da sede da empresa na cidade de Alumínio (SP).
A fábrica ampliará a sua produção anual de perfis de alumínio de 42 mil toneladas para 72 mil toneladas.

A CBA contará com investimentos de R$ 401 milhões até o final deste ano.

Álcool precisa de R$ 97 bilhões em investimentos em dez anos

Estimativa da Empresa de Pesquisa Energética considera aumento de 170% na demanda

BNDES prevê desembolso quase estável; setor quer etanol mais competitivo diante da gasolina

Os produtores de etanol terão de investir R$ 97 bilhões até 2020 para atender a um aumento de 170% na demanda nesse mesmo período, segundo estimativa divulgada ontem pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

Somente na produção os investimentos devem somar R$ 90 bilhões. O restante deve ser destinado à estrutura dutoviária e portuária. O volume total projetado para os próximos dez anos é 50% maior do que o previsto para o período 2010-2019.
A revisão deve-se à maior demanda pelo combustível, puxada principalmente pelo aumento da frota de veículos flex fuel. A EPE calcula que o consumo de etanol chegue a 73 bilhões de litros em 2020. No ano passado, ele atingiu 27 bilhões de litros.
O setor, no entanto, continua esperando uma sinalização do governo para investir. A principal queixa envolve a competitividade do combustível em relação à gasolina, que tem seu preço inalterado nas refinarias desde 2009.

"Se conseguirmos fazer com que o etanol volte a ser competitivo ante a gasolina, teremos imensos investimentos", disse ontem Marcos Jank, presidente da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), após o Ethanol Summit, evento do setor.
Segundo Jank, caso a competitividade seja restabelecida, os investimentos podem somar R$ 80 bilhões, resultando na produção adicional de 400 milhões de toneladas de cana e 150 novas usinas.

Mas o governo continua descartando reduzir o preço da gasolina. "Vamos tentar manter o preço da gasolina por bem mais tempo ainda", disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, presente no mesmo evento.

Prevendo problemas de oferta na próxima entressafra, Lobão afirmou que mantém conversas frequentes com usineiros e sinalizou que, se a oferta não for suficiente para atender à demanda, o governo voltará a reduzir a mistura de álcool à gasolina, hoje entre 18% e 25%.

INCENTIVOS
O cenário para liberação de crédito também não deve sofrer grandes mudanças. Apesar de prever "aceleração dos investimentos", o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que os desembolsos para o setor devem somar entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões nos próximos quatro anos.

Considerando o piso dessa faixa, seriam R$ 7,5 bilhões por ano, praticamente em linha com o liberado no ano passado pelo BNDES para o setor: R$ 7,6 bilhões.

Por meio de decreto, Alckmin desonerou a compra de máquinas e equipamentos destinados à geração de energia a partir do bagaço e palha da cana, pondo fim à alíquota de ICMS de 12%
Para as usinas de São Paulo, ontem o governador Geraldo Alckmin anunciou um incentivo à geração de energia a partir de biomassa.

FÁBRICA DE CELULOSE TERÁ R$ 2,7 BILHÕES

A Eldorado Celulose, que tem como sócios a J&F Participações, controladora do JBS, com 75% de participação, e a MCL Empreendimentos, de Mário Celso Lopes, com os 25%, terá sua primeira fábrica em Três Lagoas (MS). Os investimentos na nova unidade serão de R$ 5,1 bilhões, o que significa que o financiamento do BNDES equivale a 53% do total do empreendimento. A carteira do banco em papel e celulose totaliza R$ 12 bilhões

Freio no PIB reduz demanda pelo BNDES

Com procura menor, capitalização do banco pelo governo federal deverá ficar abaixo do previsto para 2011

Foi autorizada emissão de R$ 55 bi em títulos da dívida para repasse ao banco, mas nenhum papel já foi lançado

A expectativa de desaquecimento da economia e a diminuição na demanda por empréstimos farão com que a capitalização do do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) pelo governo fique abaixo do previsto para 2011.


No início do ano, o governo editou medida provisória autorizando a emissão de R$ 55 bilhões em títulos da dívida federal que seriam repassados ao banco. Até agora, nenhum papel foi lançado.


O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse à Folha que o início da emissão de ações deverá ocorrer ainda neste semestre. O valor, no entanto, deverá ficar abaixo do autorizado.


"Minha projeção é que vai ser um pouco menos, mas não tem decisão. O valor preciso que vai ser necessário neste ano depende de vários fatores, do ritmo de empréstimo, da participação privada, do ritmo da economia."
A redução do ritmo de desembolsos do BNDES é vista por economistas como um dos primeiros sinais de retração econômica. O total emprestado no primeiro trimestre foi 2% menor que no mesmo período de 2010 -primeira queda em cinco anos.


Entre os setores que apresentaram maior recuo estão construção (30%) e alimentos e bebidas (29%).
Em 2010, o governo emitiu R$ 75 bilhões para capitalizar o BNDES. Outros R$ 5 bilhões foram lançados neste ano. Mais R$ 30 bilhões foram emitidos para participar da capitalização da Petrobras.

Para o economista da consultoria Tendências Felipe Salto, mesmo com a redução a capitalização do BNDES via emissão de títulos é prejudicial para a economia.
Isso ocorre, diz, porque, além de aumentar o endividamento público, a emissão pressiona a demanda e contribui para a alta da inflação. Assim, o Banco Central é levado a aumentar juros, impedindo maior participação do setor privado no crédito.

MUDANÇA GRADUAL
Segundo Augustin, o governo vem incentivando uma maior participação do setor privado no financiamento de grandes obras, mas isso será feito de forma gradual.
"A ideia é que o BNDES continue a financiar o crescimento do investimento, aumente a formação bruta de capital e, quanto mais isso puder ser feito também pela iniciativa privada, melhor. O quão rápido [será] depende de vários fatores", afirma.

Suzano compra Cepemar em novo lance de diversificação dos negócios

Meio ambiente: Expectativa é que receita do grupo comprado alcance R$ 100 milhões no ano

Vaz Moreira, presidente da nova holding: previsão de investimentos adicionais de R$ 50 milhões será revista para cima

Em mais um passo rumo à diversificação dos negócios - embora o pilar da sustentabilidade permaneça comum a todas as suas operações -, o grupo Suzano fechou a compra do controle do grupo Cepemar, que reúne seis empresas com atuação em serviços ambientais. Com a aquisição, o conglomerado comandado pela família Feffer, tradicionalmente dedicado à indústria de base, estreia em um segmento novo, relacionado diretamente ao meio ambiente e ainda muito fragmentado no país, o que abre espaço para mais rodadas de consolidação. O valor do negócio não foi divulgado.

O comando da nova holding, na qual a Suzano assume 55% de participação, foi delegado ao ex-diretor financeiro da Petrobras Ronnie Vaz Moreira, executivo que também já esteve à frente da Globopar e ocupou o posto de vice-presidente executivo da Light. A operação foi provisoriamente batizada HES (do inglês Holding Environment Services) e ficará sob o guarda-chuva da IPLF, empresa paralela à Suzano Holding.

Para este ano, a expectativa é de que a HES alcance faturamento de R$ 100 milhões, com crescimento de dois dígitos na comparação com 2010. De acordo com o presidente da nova holding, inicialmente, estão previstos investimentos adicionais de R$ 50 milhões na operação nos próximos três anos. Esse valor, contudo, deve subir após a entrada da Suzano no negócio. "A Cepemar ganha musculatura financeira com a entrada do grupo. Vamos revisar esse plano de investimento", adianta Moreira. Eventuais fusões e aquisições não estão descartadas.

De acordo com o vice-presidente da Suzano Holding, Claudio Sonder, a aquisição do controle da Cepemar está alinhada à estratégia prevista no plano 2024, ano em que o grupo celebrará seu centenário. "Foi amor à primeira vista", brinca. O encontro, conta Sonder, decorreu de objetivos complementares: ao mesmo tempo em que a Suzano mapeou uma nova atividade de interesse, a Cepemar decidiu que seria importante para o futuro da empresa ter o apoio de um grande grupo. A primeira parcela da compra já foi paga, com recursos próprios, e a segunda será quitada em até cinco anos, em função do desempenho do negócio.

O grupo Cepemar compreende seis empresas que prestam serviços ambientais para grandes companhias da área de petróleo e gás, mineração e siderurgia, papel e celulose, energia, entre outras indústrias. Fundado em 1978 pelo empresário Nelson Saldanha, que fica com 45% das ações da HES e assume uma cadeira no conselho de administração, o grupo é dono da Cepemar Meio Ambiente, Marine Survey, Unimar, Terramar, Cepemar Environmental Services, Universidade do Mar e detém fatia de 20% na Brasil Supply, que tem a Petrobras Distribuidora entre seus acionistas.

De acordo com o diretor comercial da Cepemar, Erik Cunha, a empresa que deu origem ao grupo, a Cepemar Meio Ambiente, produz estudos e diagnósticos ambientais, com atuação no continente americano e nos Emirados Árabes. A operação tem uma "espelho" nos Estados Unidos, a Cepemar Environmental Services, fundada em 2004 e sediada no parque de pesquisas da Florida Atlantic University. O grupo possui ainda 20% do capital da Brasil Supply, controlada pela Cotia Trading, especializada em gestão ambiental, logística e coleta de resíduos gerados em plataformas.

Outro negócio do grupo, a Terramar ainda está em fase pré-operacional e de licenciamento ambiental. A empresa atuará em toda a cadeia de gestão de resíduos nos setores de petróleo e gás, mineração, siderurgia e celulose e papel. A Marine Survey, por sua vez, é o foco da holding neste momento. Com atuação na área de monitoramento ambiental offshore, é dona da embarcação Seward Johnson, submersível tripulado que atende a Petrobras e executou trabalhos no Golfo do México, inclusive à época do acidente com uma plataforma da British Petroleum (BP), no começo do ano passado. Por fim, diante da escassez de mão de obra qualificada na área marinha, o grupo fundou a Universidade do Mar, que oferece cursos de extensão e pós-graduação.

De acordo com Ronnie Vaz Moreira, o nome definitivo da nova holding será escolhido nos próximos meses. A presidência do conselho administrativo será ocupada pelo presidente do grupo Suzano, David Feffer.

Plano 2024 prevê expansão e entrada em novas áreas

Ao completar 100 anos de fundação, o Grupo Suzano deverá ter um perfil bastante diferente daquele que exibia até o início de 2010. Ao menos é o que pretende o planejamento estratégico 2024, resultado de dois anos de trabalho e pesquisas que contaram com o apoio da consultoria McKinsey. "Foram 18 meses de trabalho que nos levaram à definição de objetivos como buscar o crescimento sustentado da Suzano Papel e Celulose, bem como novos focos de crescimento", conta o vice-presidente da Suzano Holding, Claudio Sonder. "Não é de se surpreender se houver outras aquisições."

Em linha ao plano, a Suzano já anunciou a construção de duas novas fábricas de celulose branqueada de eucalipto, com investimentos de US$ 4,6 bilhões (sem considerar o orçamento para a área florestal). Ainda na área da Suzano Papel e Celulose, fechou a compra da totalidade do Conpacel e ficou com os 50% que eram da Fibria, por R$ 1,45 bilhão, e da distribuidora de papéis KSR.

No ano passado, adquiriu também a britânica FuturaGene, de biotecnologia, por US$ 82 milhões. E lançou a Suzano Energia Renovável, que vai produzir "pellets" para geração de energia que serão exportados para a Europa. Até 2019, a operação deverá receber aportes de US$ 1,3 bilhão. Neste ano, o grupo anunciou uma parceria com a Helbor para incorporações imobiliárias, a Alden.

Segundo Sonder, não há sinergia operacional entre a nova holding, temporariamente batizada HES, que ficou abaixo da IPLF no organograma do grupo, e a Suzano Papel e Celulose, que está abaixo da Suzano Holding. "O que é comum às operações é a sustentabilidade. Esse é o futuro", afirma. Hoje, a área de celulose e papel corresponde ao principal negócio do grupo, cujo faturamento anual é estimado em R$ 7 bilhões. (SF)

União usará compras para estimular inovação

Conjuntura: Empresas que desenvolvem tecnologia no país poderão cobrar até 25% mais que produto importado

O uso do poder de compra do governo para dar vantagens a fornecedores nacionais que invistam em tecnologia será uma das principais armas da Política de Desenvolvimento Competitivo (PDC), a nova política industrial, a ser divulgada em breve pelo governo. O setor público será autorizado a fazer encomendas, sem licitação, de bens tecnológicos a serem desenvolvidos por empresas no país, especialmente em áreas como fármacos, defesa e software.

A equipe econômica finalizou também a regulamentação que dará preferência nas compras de governo a empresas que desenvolvem tecnologia no Brasil, mesmo a preços até 25% superiores aos dos concorrentes estrangeiros ou de tecnologia importada. O governo revê a Lei de Informática, a chamada Lei do Bem e a legislação sobre semicondutores, para ampliar incentivos à fabricação e montagem de eletroeletrônicos no país. A tendência dos técnicos é retirar vantagens hoje concedidas à montagem de equipamentos eletrônicos, limitando-as, gradualmente às empresas com requisitos mínimos de componentes nacionais.

As empresas enquadradas na Lei de Inovação ou na Lei do Bem, com incentivos à produção nacional, também serão beneficiadas pela margem de preferência de 25% nas licitações públicas, segundo a regulamentação em estudo. Processos, como os usados na fabricação de princípios básicos para fármacos, também terão essa vantagem sobre importados.

Como hoje ocorre com os Processos Produtivos Básicos (PPBs), apresentados pelas empresas candidatas a incentivos fiscais do governo, as empresas ou consórcios interessados em receber encomendas do governo, de desenvolvimento de produtos e processos com alto grau de tecnologia, terão propostas analisadas por uma comissão interministerial, que avaliará a adequação da empresa ou consórcio às necessidades do governo e às expectativas de desenvolvimento tecnológico do país.
O governo tem, como alvo, especialmente, fornecimento de softwares aos órgãos públicos, equipamentos de saúde, remédios, vacinas e equipamento de defesa - há a possibilidade de incluir até o setor de têxteis, com a incorporação de novas tecnologias na confecção de uniformes para as Forças Armadas, segundo exemplifica uma autoridade envolvida na discussão.

Em compras de instrumentos e equipamentos para o setor de saúde, o Estado gasta pelo menos R$ 10 bilhões por ano, calcula um técnico que participa das discussões da PDC, para dar uma dimensão do peso que a medida pode ter na economia.
Os diversos ministérios encarregados da elaboração do novo programa de apoio à indústria nacional divergem sobre a melhor maneira de divulgá-lo. Enquanto o Ministério do Desenvolvimento prefere divulgar todas as medidas em uma só cerimônia, com o anúncio das metas e linhas de ação da PDC, outros ministérios, o da Fazenda e o da Ciência e Tecnologia, são favoráveis à liberação das novas regras à medida que o detalhamento for aprovado pelos ministros.

Algumas das decisões podem sair nos próximos dias, como medidas da PDC, mesmo antes da divulgação de todo o conjunto. Além do uso das compras governamentais como ferramenta para incentivar a produção nacional de partes, componentes, produtos e serviços, estão em fase final mudanças tributárias, que serão complementadas por medidas de crédito e pelo reforço dos mecanismos de proteção contra a concorrência dos importados.

Se depender do estágio atual das discussões no governo, a desoneração de impostos deve se limitar à prometida desoneração da folha de pagamentos, com eliminação, em três anos, da contribuição previdenciária paga pelas empresas, e à ampliação do Supersimples, alvo de projeto já no Congresso, que elevará para R$ 3,6 milhões o faturamento bruto anual permitido a empresas para se beneficiarem de simplificação de impostos. As empresas exportadoras poderão continuar enquadradas no Supersimples, caso extrapolem esse limite de faturamento com exportações.

A desoneração da folha será anunciada, mas seu formato ainda não obteve consenso na equipe econômica, que ainda busca maneiras de compensar a perda de arrecadação, de até R$ 95 bilhões com o fim da contribuição patronal. Nos últimos dias, o governo passou a avaliar a proposta apresentada pela Confederação Nacional de Serviços (CNS), de eliminação total da contribuição previdenciária das empresas em troca da criação de uma nova contribuição sobre movimentação financeira.
O inconveniente dessa proposta é a alíquota alta, 0,6%, necessária para compensar as perdas da Previdência com essa contribuição, cobrada sobre movimentações como a antiga CPMF. A alternativa preferida até agora a uma nova contribuição sobre a movimentação financeira seria cobrança pelo faturamento das empresas, mas os técnicos ainda não chegaram a um acordo sobre como fazer a mudança - o imposto sobre faturamento poderá ser cobrado apenas de alguns setores, embora a preferência seja por atingir todos os setores.

A Política de Desenvolvimento Competitivo também terá forte componente de defesa contra importações desleais: será autorizado um reforço na equipe de técnicos do Departamento de Defesa Comercial, do Ministério do Desenvolvimento, para ampliar a atuação contra surtos de importação.

O governo criará uma equipe de "inteligência de defesa comercial" para realizar estudos sobre os riscos da entrada de mercadorias importadas no país, com a tarefa de propor medidas como valoração aduaneira (preços mínimos de importação) e medidas técnicas voltadas a igualar as condições de competição entre produtos fabricados no país e importados.

Como estão suspensas as contratações no serviço público e a convocação de aprovados em concurso, os ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda analisam como fazer para reforçar a equipe de analistas do governo na área de defesa comercial, o que poderá exigir a contratação de consultorias ou assessorias por tempo definido.

No campo do crédito, o plano do governo é popularizar o uso do PSI, o Programa BNDES de Sustentação do Investimento, criado para financiar inovação tecnológica e para produção, aquisição e exportação de bens de capital e inovação tecnológica. O programa, que foi prorrogado até o fim deste ano, concede financiamento a taxas de 4% a 5% para inovação e de até 10% para compra de partes, componentes e serviços a serem usados em máquinas e equipamentos destinados à produção.

Nos próximos dias, deve começar o anúncio das ações ligadas ao PDC, que será complementado por medidas específicas de desenvolvimento tecnológico, a serem divulgadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.

Estímulos à tecnologia nacional

O governo vai usar seu poder de compra para dar vantagens a fornecedores nacionais que invistam em tecnologia. Essa será uma das principais armas da Política de Desenvolvimento Competitivo (PDC), a nova política industrial a ser divulgada em breve pelo governo. O setor público será autorizado a fazer encomendas sem licitação de bens tecnológicos a serem desenvolvidos por empresas no país, especialmente em áreas como fármacos, equipamentos de defesa e software.

A equipe econômica finalizou a regulamentação que dará preferência nas compras governamentais a empresas que desenvolvem tecnologia no Brasil mesmo a preços até 25% superiores aos dos concorrentes estrangeiros ou de tecnologia importada. O governo também vai rever a Lei de Informática, a chamada Lei do Bem, e a legislação sobre semicondutores para ampliar incentivos à fabricação de eletroeletrônicos no país. A tendência é retirar vantagens hoje concedidas à montagem de equipamentos eletrônicos, limitando-as gradualmente às empresas que cumpram requisitos mínimos de componentes nacionais.