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terça-feira, 7 de junho de 2011

Suzano compra Cepemar em novo lance de diversificação dos negócios

Meio ambiente: Expectativa é que receita do grupo comprado alcance R$ 100 milhões no ano

Vaz Moreira, presidente da nova holding: previsão de investimentos adicionais de R$ 50 milhões será revista para cima

Em mais um passo rumo à diversificação dos negócios - embora o pilar da sustentabilidade permaneça comum a todas as suas operações -, o grupo Suzano fechou a compra do controle do grupo Cepemar, que reúne seis empresas com atuação em serviços ambientais. Com a aquisição, o conglomerado comandado pela família Feffer, tradicionalmente dedicado à indústria de base, estreia em um segmento novo, relacionado diretamente ao meio ambiente e ainda muito fragmentado no país, o que abre espaço para mais rodadas de consolidação. O valor do negócio não foi divulgado.

O comando da nova holding, na qual a Suzano assume 55% de participação, foi delegado ao ex-diretor financeiro da Petrobras Ronnie Vaz Moreira, executivo que também já esteve à frente da Globopar e ocupou o posto de vice-presidente executivo da Light. A operação foi provisoriamente batizada HES (do inglês Holding Environment Services) e ficará sob o guarda-chuva da IPLF, empresa paralela à Suzano Holding.

Para este ano, a expectativa é de que a HES alcance faturamento de R$ 100 milhões, com crescimento de dois dígitos na comparação com 2010. De acordo com o presidente da nova holding, inicialmente, estão previstos investimentos adicionais de R$ 50 milhões na operação nos próximos três anos. Esse valor, contudo, deve subir após a entrada da Suzano no negócio. "A Cepemar ganha musculatura financeira com a entrada do grupo. Vamos revisar esse plano de investimento", adianta Moreira. Eventuais fusões e aquisições não estão descartadas.

De acordo com o vice-presidente da Suzano Holding, Claudio Sonder, a aquisição do controle da Cepemar está alinhada à estratégia prevista no plano 2024, ano em que o grupo celebrará seu centenário. "Foi amor à primeira vista", brinca. O encontro, conta Sonder, decorreu de objetivos complementares: ao mesmo tempo em que a Suzano mapeou uma nova atividade de interesse, a Cepemar decidiu que seria importante para o futuro da empresa ter o apoio de um grande grupo. A primeira parcela da compra já foi paga, com recursos próprios, e a segunda será quitada em até cinco anos, em função do desempenho do negócio.

O grupo Cepemar compreende seis empresas que prestam serviços ambientais para grandes companhias da área de petróleo e gás, mineração e siderurgia, papel e celulose, energia, entre outras indústrias. Fundado em 1978 pelo empresário Nelson Saldanha, que fica com 45% das ações da HES e assume uma cadeira no conselho de administração, o grupo é dono da Cepemar Meio Ambiente, Marine Survey, Unimar, Terramar, Cepemar Environmental Services, Universidade do Mar e detém fatia de 20% na Brasil Supply, que tem a Petrobras Distribuidora entre seus acionistas.

De acordo com o diretor comercial da Cepemar, Erik Cunha, a empresa que deu origem ao grupo, a Cepemar Meio Ambiente, produz estudos e diagnósticos ambientais, com atuação no continente americano e nos Emirados Árabes. A operação tem uma "espelho" nos Estados Unidos, a Cepemar Environmental Services, fundada em 2004 e sediada no parque de pesquisas da Florida Atlantic University. O grupo possui ainda 20% do capital da Brasil Supply, controlada pela Cotia Trading, especializada em gestão ambiental, logística e coleta de resíduos gerados em plataformas.

Outro negócio do grupo, a Terramar ainda está em fase pré-operacional e de licenciamento ambiental. A empresa atuará em toda a cadeia de gestão de resíduos nos setores de petróleo e gás, mineração, siderurgia e celulose e papel. A Marine Survey, por sua vez, é o foco da holding neste momento. Com atuação na área de monitoramento ambiental offshore, é dona da embarcação Seward Johnson, submersível tripulado que atende a Petrobras e executou trabalhos no Golfo do México, inclusive à época do acidente com uma plataforma da British Petroleum (BP), no começo do ano passado. Por fim, diante da escassez de mão de obra qualificada na área marinha, o grupo fundou a Universidade do Mar, que oferece cursos de extensão e pós-graduação.

De acordo com Ronnie Vaz Moreira, o nome definitivo da nova holding será escolhido nos próximos meses. A presidência do conselho administrativo será ocupada pelo presidente do grupo Suzano, David Feffer.

Plano 2024 prevê expansão e entrada em novas áreas

Ao completar 100 anos de fundação, o Grupo Suzano deverá ter um perfil bastante diferente daquele que exibia até o início de 2010. Ao menos é o que pretende o planejamento estratégico 2024, resultado de dois anos de trabalho e pesquisas que contaram com o apoio da consultoria McKinsey. "Foram 18 meses de trabalho que nos levaram à definição de objetivos como buscar o crescimento sustentado da Suzano Papel e Celulose, bem como novos focos de crescimento", conta o vice-presidente da Suzano Holding, Claudio Sonder. "Não é de se surpreender se houver outras aquisições."

Em linha ao plano, a Suzano já anunciou a construção de duas novas fábricas de celulose branqueada de eucalipto, com investimentos de US$ 4,6 bilhões (sem considerar o orçamento para a área florestal). Ainda na área da Suzano Papel e Celulose, fechou a compra da totalidade do Conpacel e ficou com os 50% que eram da Fibria, por R$ 1,45 bilhão, e da distribuidora de papéis KSR.

No ano passado, adquiriu também a britânica FuturaGene, de biotecnologia, por US$ 82 milhões. E lançou a Suzano Energia Renovável, que vai produzir "pellets" para geração de energia que serão exportados para a Europa. Até 2019, a operação deverá receber aportes de US$ 1,3 bilhão. Neste ano, o grupo anunciou uma parceria com a Helbor para incorporações imobiliárias, a Alden.

Segundo Sonder, não há sinergia operacional entre a nova holding, temporariamente batizada HES, que ficou abaixo da IPLF no organograma do grupo, e a Suzano Papel e Celulose, que está abaixo da Suzano Holding. "O que é comum às operações é a sustentabilidade. Esse é o futuro", afirma. Hoje, a área de celulose e papel corresponde ao principal negócio do grupo, cujo faturamento anual é estimado em R$ 7 bilhões. (SF)

União usará compras para estimular inovação

Conjuntura: Empresas que desenvolvem tecnologia no país poderão cobrar até 25% mais que produto importado

O uso do poder de compra do governo para dar vantagens a fornecedores nacionais que invistam em tecnologia será uma das principais armas da Política de Desenvolvimento Competitivo (PDC), a nova política industrial, a ser divulgada em breve pelo governo. O setor público será autorizado a fazer encomendas, sem licitação, de bens tecnológicos a serem desenvolvidos por empresas no país, especialmente em áreas como fármacos, defesa e software.

A equipe econômica finalizou também a regulamentação que dará preferência nas compras de governo a empresas que desenvolvem tecnologia no Brasil, mesmo a preços até 25% superiores aos dos concorrentes estrangeiros ou de tecnologia importada. O governo revê a Lei de Informática, a chamada Lei do Bem e a legislação sobre semicondutores, para ampliar incentivos à fabricação e montagem de eletroeletrônicos no país. A tendência dos técnicos é retirar vantagens hoje concedidas à montagem de equipamentos eletrônicos, limitando-as, gradualmente às empresas com requisitos mínimos de componentes nacionais.

As empresas enquadradas na Lei de Inovação ou na Lei do Bem, com incentivos à produção nacional, também serão beneficiadas pela margem de preferência de 25% nas licitações públicas, segundo a regulamentação em estudo. Processos, como os usados na fabricação de princípios básicos para fármacos, também terão essa vantagem sobre importados.

Como hoje ocorre com os Processos Produtivos Básicos (PPBs), apresentados pelas empresas candidatas a incentivos fiscais do governo, as empresas ou consórcios interessados em receber encomendas do governo, de desenvolvimento de produtos e processos com alto grau de tecnologia, terão propostas analisadas por uma comissão interministerial, que avaliará a adequação da empresa ou consórcio às necessidades do governo e às expectativas de desenvolvimento tecnológico do país.
O governo tem, como alvo, especialmente, fornecimento de softwares aos órgãos públicos, equipamentos de saúde, remédios, vacinas e equipamento de defesa - há a possibilidade de incluir até o setor de têxteis, com a incorporação de novas tecnologias na confecção de uniformes para as Forças Armadas, segundo exemplifica uma autoridade envolvida na discussão.

Em compras de instrumentos e equipamentos para o setor de saúde, o Estado gasta pelo menos R$ 10 bilhões por ano, calcula um técnico que participa das discussões da PDC, para dar uma dimensão do peso que a medida pode ter na economia.
Os diversos ministérios encarregados da elaboração do novo programa de apoio à indústria nacional divergem sobre a melhor maneira de divulgá-lo. Enquanto o Ministério do Desenvolvimento prefere divulgar todas as medidas em uma só cerimônia, com o anúncio das metas e linhas de ação da PDC, outros ministérios, o da Fazenda e o da Ciência e Tecnologia, são favoráveis à liberação das novas regras à medida que o detalhamento for aprovado pelos ministros.

Algumas das decisões podem sair nos próximos dias, como medidas da PDC, mesmo antes da divulgação de todo o conjunto. Além do uso das compras governamentais como ferramenta para incentivar a produção nacional de partes, componentes, produtos e serviços, estão em fase final mudanças tributárias, que serão complementadas por medidas de crédito e pelo reforço dos mecanismos de proteção contra a concorrência dos importados.

Se depender do estágio atual das discussões no governo, a desoneração de impostos deve se limitar à prometida desoneração da folha de pagamentos, com eliminação, em três anos, da contribuição previdenciária paga pelas empresas, e à ampliação do Supersimples, alvo de projeto já no Congresso, que elevará para R$ 3,6 milhões o faturamento bruto anual permitido a empresas para se beneficiarem de simplificação de impostos. As empresas exportadoras poderão continuar enquadradas no Supersimples, caso extrapolem esse limite de faturamento com exportações.

A desoneração da folha será anunciada, mas seu formato ainda não obteve consenso na equipe econômica, que ainda busca maneiras de compensar a perda de arrecadação, de até R$ 95 bilhões com o fim da contribuição patronal. Nos últimos dias, o governo passou a avaliar a proposta apresentada pela Confederação Nacional de Serviços (CNS), de eliminação total da contribuição previdenciária das empresas em troca da criação de uma nova contribuição sobre movimentação financeira.
O inconveniente dessa proposta é a alíquota alta, 0,6%, necessária para compensar as perdas da Previdência com essa contribuição, cobrada sobre movimentações como a antiga CPMF. A alternativa preferida até agora a uma nova contribuição sobre a movimentação financeira seria cobrança pelo faturamento das empresas, mas os técnicos ainda não chegaram a um acordo sobre como fazer a mudança - o imposto sobre faturamento poderá ser cobrado apenas de alguns setores, embora a preferência seja por atingir todos os setores.

A Política de Desenvolvimento Competitivo também terá forte componente de defesa contra importações desleais: será autorizado um reforço na equipe de técnicos do Departamento de Defesa Comercial, do Ministério do Desenvolvimento, para ampliar a atuação contra surtos de importação.

O governo criará uma equipe de "inteligência de defesa comercial" para realizar estudos sobre os riscos da entrada de mercadorias importadas no país, com a tarefa de propor medidas como valoração aduaneira (preços mínimos de importação) e medidas técnicas voltadas a igualar as condições de competição entre produtos fabricados no país e importados.

Como estão suspensas as contratações no serviço público e a convocação de aprovados em concurso, os ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda analisam como fazer para reforçar a equipe de analistas do governo na área de defesa comercial, o que poderá exigir a contratação de consultorias ou assessorias por tempo definido.

No campo do crédito, o plano do governo é popularizar o uso do PSI, o Programa BNDES de Sustentação do Investimento, criado para financiar inovação tecnológica e para produção, aquisição e exportação de bens de capital e inovação tecnológica. O programa, que foi prorrogado até o fim deste ano, concede financiamento a taxas de 4% a 5% para inovação e de até 10% para compra de partes, componentes e serviços a serem usados em máquinas e equipamentos destinados à produção.

Nos próximos dias, deve começar o anúncio das ações ligadas ao PDC, que será complementado por medidas específicas de desenvolvimento tecnológico, a serem divulgadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.

Estímulos à tecnologia nacional

O governo vai usar seu poder de compra para dar vantagens a fornecedores nacionais que invistam em tecnologia. Essa será uma das principais armas da Política de Desenvolvimento Competitivo (PDC), a nova política industrial a ser divulgada em breve pelo governo. O setor público será autorizado a fazer encomendas sem licitação de bens tecnológicos a serem desenvolvidos por empresas no país, especialmente em áreas como fármacos, equipamentos de defesa e software.

A equipe econômica finalizou a regulamentação que dará preferência nas compras governamentais a empresas que desenvolvem tecnologia no Brasil mesmo a preços até 25% superiores aos dos concorrentes estrangeiros ou de tecnologia importada. O governo também vai rever a Lei de Informática, a chamada Lei do Bem, e a legislação sobre semicondutores para ampliar incentivos à fabricação de eletroeletrônicos no país. A tendência é retirar vantagens hoje concedidas à montagem de equipamentos eletrônicos, limitando-as gradualmente às empresas que cumpram requisitos mínimos de componentes nacionais.

Cana puxa valorização no campo em SP

O Índice Quadrissemanal de Preços Recebidos pela Agropecuária Paulista (IqPR), do Instituto de Economia Agrícola (IEA), ligado à Secretaria de Agricultura paulista, encerrou maio com alta de 15,43%.
O maior responsável pela valorização foi o índice de produtos de origem vegetal, que subiu 23,45% por conta principalmente da cana-de-açúcar. O índice de produtos de origem animal caiu 4,50%.Segundo o IEA, quando a cana-de-açúcar é excluída do cálculo o IqPR cai 3,56% e o índice de vegetais recua 2,65%. No acumulado de 12 meses, o índice de preços agropecuários apresenta alta de 34,02%.

Os produtos que registraram as maiores altas em maio foram: cana (42,62%), tomate para mesa (38,78%), feijão (33,44%), leite C (5,74%) e o leite B (5,04%). Os que tiveram as maiores quedas foram algodão (26,12%), laranja para mesa (21,73%), ovos (11,61%), carne de frango (10,48%), carne suína (8,48%) e banana (6,25%).

Lobão vê dificuldades no abastecimento de etanol

Governo não quer reduzir a mistura de etanol na gasolina, mas o fará se for necessário, disse o ministro Edison Lobão
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o governo está preocupado com o abastecimento de etanol na próxima entressafra, que começa em dezembro deste ano e se estende até abril do ano seguinte.

Ele afirmou que o governo e os empresários do setor produtor de etanol estão em conversações para que a oferta seja garantida. As distribuidoras também estão engajadas no diálogo. "Prevemos alguma dificuldade para o próximo ano", disse o ministro durante o Ethanol Summit, evento que começou ontem em São Paulo.
O ministro disse que o governo não quer reduzir a mistura de etanol (anidro) na gasolina, atualmente em 25%, mas se for preciso, a medida poderá ser tomada. Ele afirmou que as medidas para estocagem de etanol (warrantagem) devem ser anunciadas "em breve" e descartou o aumento dos preços da gasolina, apesar das altas internacionais do petróleo.

A oferta apertada de etanol é resultante da desaceleração dos investimentos em novas usinas no país, consequência da crise que abateu o setor em 2008. Segundo o presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar, Marcos Jank, o nível de crescimento da moagem de cana caiu para 3,5% ao ano desde a safra 2008/09, ante o ritmo anual de 10,4% que ocorria desde 2003/04.

Por causa de demandas antigas, anteriores a 2010, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) conseguiu desembolsar R$ 7,6 bilhões ao setor no ano passado, um recorde. Desse total, segundo Luciano Coutinho, presidente do banco de fomento, quase R$ 4 bilhões foram direcionados à compra de máquinas e equipamentos. Para 2011, Coutinho afirma que a tendência é que o volume de desembolso se mantenha. Não foram fornecidos, porém, dados sobre as operações.

Ele afirma que o banco está se preparando para atender à grande demanda por financiamento que virá do setor nos próximos anos. A instituição estima desembolsar de 2011 a 2014 entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões ao setor.

Os recursos, explica, serão direcionados à expansão da capacidade produtiva e dos canaviais, integração da rede de gasodutos, melhoria da logística e desenvolvimento tecnológico. "Precisamos acelerar os investimentos, começando pela renovação dos canaviais", destacou Coutinho.

A própria Petrobras Biocombustível (PBIO) revisa seu plano de investimentos para os próximos anos em produção de etanol, segundo Miguel Rossetto, presidente da PBIO. A intenção, diz ele, é que o ritmo de aportes seja mais intenso do que foi até agora. "Entre 2010 e 2014 vamos aplicar US$ 1,9 bilhão no setor, parte já em andamento. A ideia é avançar", disse o executivo.

Também ontem, no Ethanol Summit, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou que as usinas em São Paulo terão redução de 12% para zero de ICMS na aquisição de bens de capital utilizados em cogeração de energia elétrica com bagaço de cana.

O sonho de mover o mundo com algas marinhas

O empresário argentino Jorge Kaloustian faz o estereótipo do cientista maluco: fala pelos cotovelos, tem uma pequena mostra de suas descobertas na mesa de trabalho e alimenta projetos grandiosos. A atual obsessão dele, após dez anos de pesquisas, é viabilizar um investimento de US$ 60 milhões para produzir 200 mil toneladas por ano de biodiesel à base de algas marinhas. Kaloustian está à procura de sócios. "Tenho não menos de dez ofertas interessantes", jura.

Sua empresa, a Oil Fox, emprega um batalhão de biólogos e engenheiros. Ela tem uma planta industrial em San Nicolás, na Província de Buenos Aires, inaugurada em agosto de 2010 e que já tem essa capacidade instalada - mas, por enquanto, apenas 5% do total de biodiesel é feito com algas. O restante vem da soja e o custo de elaboração alcança US$ 1.050 por tonelada.

Com as algas marinhas, o empresário argentino garante ser possível produzir o mesmo volume por US$ 200, o que deixaria margens de lucro insuperáveis. Ele já investiu US$ 10 milhões, em capital próprio, para construir 60 piscinas artificiais onde as algas são cultivadas e na estrutura de apoio à produção do biocombustível. Sua meta é chegar a 500 piscinas até o fim do ano.

"Em 50 hectares de reservatórios com algas, vamos produzir o mesmo volume de biodiesel que poderíamos ter com 200 mil hectares de soja", entusiasma-se Kaloustian, munido de comparações, na sede da Oil Fox, no centro de Buenos Aires.

"O problema não é a viabilidade técnica, mas os custos", diz o empresário.
Para crescerem, as algas precisam de três insumos: muito dióxido de carbono (gastam-se US$ 4,8 mil por tonelada de alga), luz abundante de dia e de noite (são necessários 9 megawatts médios para abastecer o projeto da Oil Fox em San Nicolás) e nutrientes caros. Kaloustian diz ter resolvido esses três problemas: fez acordo com uma central térmica movida a carvão para capturar CO2 gratuitamente, por meio de um duto com cinco quilômetros de extensão, em troca dos créditos de carbono; instalou uma miniusina a biogás, que usa dejetos de animais como fonte, para garantir energia elétrica própria; e ainda aproveita o processo de biodigestão da usina para obter os fertilizantes usados na alimentação das algas.

Cada piscina artificial, com capacidade para 500 mil litros de água, é coberta por um plástico especial, com cristais microscópicos que refratam a luz e estimulam o crescimento das algas. São 500 quilos por dia de rendimento e o ciclo biológico delas se renova integralmente a cada 24 horas. "Posso dizer que tenho 365 colheitas por ano", diz ele.

Há pouco mais de dez anos, Kaloustian desistiu de outras fontes alternativas, como côco e pinhão manso. Primeiro, concentrou-se no uso das algas marinhas para elaborar suplementos alimentares ricos em proteínas. Até hoje os suplementos de sua marca são vendidos nas farmácias argentinas, mas agora ele sonha mesmo em mover o mundo com o biodiesel das algas.

Nos últimos meses, Kaloustian viajou por lugares como a China, a Califórnia e o Ceará - todos reúnem as condições adequadas para a produção em larga escala. Parece coisa de cientista doido, mas é bom levá-lo a sério, nem que seja por via das dúvidas: a Exxon Mobil já anunciou um investimento de US$ 600 milhões, em cinco anos, no desenvolvimento de biocombustível à base das mesmas algas. (DR)

Biodiesel atrai investimentos na Argentina

Agroenergia : Aportes somam US$ 900 milhões desde 2007 e produção deve alcançar 2,5 milhões de toneladas

Na contramão de sua indústria petrolífera, que registra os piores resultados em duas décadas, a Argentina vive uma febre de investimentos na produção de biodiesel. Saindo praticamente do zero, o país conquistou a posição de maior exportador mundial do produto. A nova estrela do setor é o mercado doméstico, cuja obrigatoriedade de misturar 5% de biocombustível no diesel comum foi implementada em janeiro do ano passado. A mistura subiu para 7% no segundo semestre e o governo conversa com produtores para levá-la a 10% no curto prazo.
Sem políticas sociais atreladas nem experimentos com matérias-primas alternativas, como a mamona no Brasil, quase toda a produção da Argentina é à base de soja e foi crescendo em ritmo geométrico. De 168 mil toneladas em 2007, aumentou para 1,2 milhão de toneladas em 2009 e deverá alcançar 2,5 milhões de toneladas neste ano.

Só os 12 maiores produtores do país, agrupados na Câmara Argentina de Biocombustíveis (Carbio), fizeram investimentos que somam US$ 900 milhões desde 2007. Um dos grandes projetos em andamento é o da americana Cargill, que pretende inaugurar em setembro uma planta com capacidade para processar 240 mil toneladas por ano, na Província de Santa Fé.

"O complexo oleaginoso argentino é um setor muito bem estruturado e com vantagens competitivas enormes no que se refere à concentração geográfica e à distância dos portos, além de estar tradicionalmente orientado às exportações", afirmou ao Valor o diretor-executivo da Carbio, Victor Castro. Ele ressalta que as principais zonas produtoras de biodiesel e de sua principal matéria-prima estão em um raio de 250 quilômetros do porto de San Lorenzo, em Santa Fé, derrubando os custos logísticos para as exportações.

As perspectivas de crescimento do mercado interno, em que o diesel representa 65% do consumo de combustíveis, e os incentivos tributários explicam a explosão de investimentos. Depois da moagem do grão, os produtores argentinos têm duas opções: vender óleo de soja pagando 35% de retenções (imposto sobre os embarques ao exterior) ou transformá-lo em biodiesel por um pequeno custo adicional, mas ser taxado em apenas 2,5%. Além disso, ganham direito à depreciação acelerada de equipamentos e isenção no pagamento de imposto sobre lucro mínimo presumido.

Com a introdução do B5, no início de 2010, cerca de um terço da produção nacional passou a ser destinada para o mercado doméstico. Em abril, a China interrompeu suas compras de óleo de soja da Argentina, alegando descumprimento de certificação técnica. O governo argentino decidiu então aumentar a mistura para 7%, a fim de evitar prejuízo aos produtores com a perda de mercado, igualando o percentual adotado em países como a Alemanha. A medida foi bem avaliada e agora o planejamento é adotar a mistura de 10% até o fim de 2011. O Instituto de Tecnologia de Buenos Aires também faz testes com o uso da proporção de 20% de biodiesel em tratores e máquinas agrícolas.

Para a Carbio, não haverá problemas para atender a demanda do biocombustível. "A capacidade de resposta das indústrias é boa e ainda temos óleo de sobra", diz Castro. Nos cálculos da consultoria Abeceb.com, que divulgou um relatório sobre o assunto na semana passada, a capacidade instalada aumentará de 2,5 milhões para 3,2 milhões de toneladas por ano, em 2011, com os investimentos em curso.

O súbito crescimento da produção de biodiesel já o levou a integrar a lista dos dez maiores produtos de exportação da Argentina. No ano passado, rendeu mais de US$ 1,2 bilhão em divisas. É um contraste importante com o setor de combustíveis fósseis. Devido às importações crescentes de diesel comum e de gás natural, que atingiram quase US$ 3,5 bilhões em 2010, o país teve seu primeiro déficit comercial na balança de petróleo e derivados em 20 anos.

A União Europeia é o principal mercado para o biocombustível argentino. Para Castro, deve continuar sendo assim por um bom tempo, já que "eles têm um mandato para reduzir as emissões (de gases do efeito estufa) até 2020". Mas os primeiros sinais de protecionismo começam a aparecer. Em maio, a Espanha dificultou a entrada de biodiesel importado, gerando fortes protestos da chancelaria argentina.