terça-feira, 16 de agosto de 2011

Para EPE, preferência por fonte de energia prejudica competitividade



Maurício Tolmasquim: "Quando não há preferência por fonte, o mais razoável para o consumidor é que seja a fonte mais barata"
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim, disse ontem que não vê razão para garantir cotas para o financiamento de certas fontes de produção para os leilões de compra de energia elétrica de novos empreendimentos (A-3) e de contratação de energia de reserva (leilão de reserva), que serão realizados nos dias 17 e 18. Ele rebateu críticas de alguns empresários, que reclamam da permissão para que todas as fontes (hídrica, eólica, biomassa e gás natural) participem do leilão A-3.
"Todo mundo está reclamando porque ninguém quer competição", disse no painel "Matriz Energética e Competitividade", no 12º Encontro Internacional de Energia, em São Paulo. A EPE habilitou 321 empreendimentos para os leilões. Juntos, somam capacidade instalada de 14.083 megawatts.
"Quando você não tem nenhuma preferência por fonte, o mais razoável para o consumidor é que seja a fonte mais barata. Sem nenhuma razão específica, acho melhor que haja competição entre todas as fontes e deixo o preço revelar quem é mais competitivo", disse Tolmasquim, em resposta a uma pergunta da plateia. Segundo ele, o fato de todas as fontes estarem participando do leilão de curto prazo não significa que nos próximos não possa haver a criação de cotas. "É lógico que quando isso acontecer a reclamação vai ser de que a cota de uma fonte foi maior que a da outra. Ai vai mudar a discussão: por que diacho o governo não deixa todas as fontes competirem entre si livremente? Por que o governo vai intervir no mercado?"
Durante sua apresentação, na qual apontou as perspectivas da EPE para a matriz energética brasileira até 2020, Tolmasquim citou que havia 582 projetos cadastrados para participar do A-3, e que, após análise da estatal, coincidentemente, foram mantidas as mesmas proporções de tipos de fontes inicialmente interessadas. "Foram eliminadas proporcionalmente empreendimentos de cada fonte, não houve fonte mais habilitada."
As usinas eólicas puxam a fila das habilitações, com 240 parques autorizados a participar dos leilões, totalizando 6.052 MW. A seguir estão as termelétricas à biomassa, com 43 empreendimentos e 2.750 MW de potência, as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), com 27 projetos e 443 MW, as termelétricas a gás natural, com dez unidades habilitadas e 4.388 MW, e as hidrelétricas, com um projeto, para ampliar Jirau, com 450 MW.
Sobre a polêmica em torno da participação da Petrobras no leilão, tendo em vista que a estatal é detentora do gás natural - concorrentes alegam que ela poderia ter vantagem em relação a outros participantes -, Tomalsquim disse que não vê problemas, nos termos das regras do leilão.
Segundo o presidente da EPE, se o Brasil crescer a uma taxa de 5% ao ano será preciso instalar mais 61 mil megawatts na matriz energética brasileira, que atualmente conta com 115 mil MW. "Olhando assim, parece um baita desafio, mas não é tanto, porque desses 61 mil, 42 mil foram contratados e já estão em construção ou em vias de se iniciar", explicou. "O que não está equacionado são esses outros 19 mil megawatts, para os quais apontamos como prioridade fontes hidráulicas e alternativas", disse Tomalsquim, para quem o Brasil já é e continuará sendo exemplo mundial de matriz energética. "Se no mundo menos de 13% das fontes de energia são renováveis, no Brasil esse percentual é de 45% e deve se manter estável até 2020."
Tomalsquim disse que é preciso cuidado em se comparar o custo da energia industrial de outros países com o do Brasil em um cenário de câmbio valorizado. "Tenho visto se multiplicarem estudos por aí que convertem tudo para dólar e comparam: 'Olha, o Brasil é muito mais caro do que o outro. Quando há um real sobrevalorizado em 30%, no mínimo é preciso ter escrúpulo na conversão."

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sem cana, usineiros podem antecipar o fim da safra


Sem cana, usineiros podem antecipar o fim da safra 

Canaviais velhos e fatores climáticos reduzem produtividade e fazem os preços subirem.


As usinas de etanol e açúcar instaladas na região Centro-Sul do país poderão antecipar para o mês de outubro o fim da safra de cana-de-açúcar. Normalmente, em um ano de períodos estáveis, isso aconteceria no mês de dezembro. Após três anos colecionando problemas (nas safras 2009/2010 e 2010/11 foram a seca e as chuvas intensas que atrapalharam, e na atual safra (2011/2012) é a falta de investimentos em novas áreas e canaviais velhos que atrapalharam a produção, além da ocorrência de geadas.

Agora, quase sem cana, é possível que os usineiros antecipem o fim da temporada, o que naturalmente elevará ainda mais os preços do etanol e do açúcar ao consumidor.

A União das Indústrias da Cana-de-açúcar (Unica) ameniza o fato, mas admite que as usinas terão que reavaliar individualmente as suas produções e cronogramas anuais."Pode ser que uma ou outra usina antecipe o final da safra devido à menor oferta de cana por área plantada neste ano", explica Sérgio Prado, da Unica. As usinas mais afetadas estão localizadas no estado de São Paulo, Minas Gerais e norte do Paraná.

Até o momento, apenas o grupo Batatais, com usinas em Batatais e Lins, na região de Araçatuba, ambas no interior de São Paulo, anunciou oficialmente a atencipação do fim da moagem em uma das unidades. Segundo Bernardo Biagi, diretor-presidente do grupo, em Lins a safra será paralisada em outubro. "Na região, tivemos uma seca severa e a geada atingiu muitos canaviais no final do mês de junho", explicou. A unidade Batatais, porém, continuará a safra até dezembro.

Na região de Piracicaba, os canaviais não devem render mais que 36 milhões de toneladas, segundo estimativas da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo, Coplacana. José Coral, presidente da entidade, trabalhava com a expectativa de colher 37 milhões de toneladas na região e, segundo ele, se este volume menor for confirmado, as usinas da região não terão cana-de-açúcar para moer a partir de outubro.

Em Minas Gerais, a usina Paraíso, do grupo Infinity Bioenergia, suspendeu suas atividades por falta de cana. A unidade mantinha canaviais plantados em cerca de 400 mil hectares. A cana ainda disponível nestes canaviais e aptas a serem colhidas, estão sendi vendidas para outras unidades instaladas na região. Nas outras unidades industrias do grupo, porém, as atividades continuam normalmente.

Os canaviais da região oeste paulista, onde está a Usina Lins, foram os mais afetados pelas fortes geadas do fim de junho. A União dos Produtores de Bioenergia (Udop) estima que pelo menos 70 usinas na região tiveram seus canaviais atingidos pelas geadas. O presidente da entidade, Celso Torquato Junqueira Franco, explica que a geada contribui ainda mais para a redução da produtividade da planta. Ele diz que muitas usinas da região estão revendo seus cronogramas para evitar prejuízos ainda maiores e é possível que a safra deste ano termine antes do previsto.

Sem ATR, a cana não vale


Na região Centro-Sul, que produz a maior parte da cana no Brasil, os canaviais já vinham perdendo produtividade porque estão velhos (a renovação dos canaviais deve ser feita a cada seis ou sete anos) e as intensas frentes frias que atingiram a área este ano também provocaram um grave problema: o florescimento da cana. O processo faz a planta brotar na parte superior e crescer acima do nível médio, roubando os nutrientes da parte que está embaixo e que é usada para fazer etanol e açúcar.

Para tentar evitar o problema, as usinas precisam colher a planta antes do período planejado, normalmente de 12 meses. Na usina, porém, esta cana não apresenta quantidades suficientes de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por hectare, perde preço (que é calculado a partir da quantidade de ATR/tonelada) e tem baixo rendimento.

Sem ajuda, o preço sobe

O governo federal anunciou, em junho, linhas de crédito especiais para o setor sucroenergético. O produtor de cana-de-açúcar, através do Plano Safra, poderá obter financiamentos de até R$ 1 milhão por ano para investir em novas áreas plantadas com cana. O resultado disso, porém, só surgirá no final de 2012, já que o canavial leva, em média, de oito a nove meses para começar produzir. "Já sinaliza ajuda, mas o governo ainda tem que definir melhor quais os planos que tem para o etanol", avalia Jacyr Costa, diretor-presidente da Usina Guarani, de Olímpia, interior de São Paulo.

Segundo Costa, a falta de políticas agrícolas bem direcionadas para o setor provocam a instabilidade, principalmente nos preços do etanol. "Não há apoio", reclama. "O Brasil é o único país do mundo que permite ao seu consumidor escolher qual combustível quer comprar. Isto, porém, é um mérito da iniciativa privada, dos usineiros. Está na hora de o governo apoiar o setor".

A maré de preços altos para o etanol ainda deve permanecer em todo o país durante três ou quatro anos, se houver investimentos e, como defendem os usineiros, apoio governamental (Globo Rural, 14/8/11)

Tereos foca aquisições para tentar avançar no setor sucroalcooleiro


Agroenergia: Controladora da Açúcar Guarani e sócia da Petrobras, empresa tem pouco espaço para novas usinas

"Vamos crescer também por aquisições, mas essas são oportunidades e não podemos prevê-las", diz Alexis Duval

Parceira da Petrobras Biocombustíveis (PBio) na produção de etanol no Estado de São Paulo, a Tereos Internacional, controladora da sucroalcooleira Guarani, tem dificuldades para estimar o quanto crescerá sua capacidade instalada de moagem de cana no longo prazo. Não por falta de planejamento, mas porque em São Paulo, maior produtor de cana do país, há poucos espaços livres para serem ocupados com novas usinas e os preços das terras são pouco convidativos.
Assim como já anunciado, a ampliação das unidades já existentes está na prioridade da Tereos, diz Alexis Duval, diretor-presidente da companhia, de origem francesa. No entanto, projetar o tamanho da operação de cana-de-açúcar no longo prazo seria atirar no escuro, diz o executivo. "São Paulo não é o Estado mais propício para 'greenfields'. Mas muitas usinas serão vendidas nos próximos anos e elas serão o foco do nosso crescimento, como já fizemos com as unidades Mandu e Vertente", diz Duval. "A questão é que fazer aquisições depende de oportunidades e essas não podemos prever", completa.
Apesar disso, até agora, a avaliação é de que o crescimento já vem sendo expressivo, diz Duval. "Desde a parceria com a Petrobras, avançamos em 50% nossa capacidade de moagem".
Com as aquisições e a ampliação das usinas já existentes, a empresa deve atingir em três a quatro anos 24,5 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana no Brasil, ante as 21 milhões de toneladas atuais.
Para esta temporada, 2011/12, a empresa revisou para 17,1 milhões de toneladas seu processamento de cana, devido aos problemas climáticos que vêm atingindo os canaviais da companhia e de todo o Centro-Sul. O número anterior era de 18,5 milhões de toneladas.
Na sexta-feira, a companhia também divulgou balanço do primeiro trimestre da safra 2011/12 no qual registrou um lucro líquido de R$ 63,2 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 58,8 milhões registrados em igual intervalo do ciclo passado.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Petrobras Biocombustível focará investimentos em novas usinas


Plano prevê que 70% do US$ 1,94 bilhão orçado para ser investido em etanol seja direcionado para produção nova


O novo plano de negócios da Petrobras Biocombustível prevê que 70% de US$ 1,94 bilhão orçado para ser investido em etanol no período de 2011 a 2015 seja direcionado para produção nova, ou seja, para novos greenfields (usinas novas), destilarias e crescimento orgânico da oferta através dos parceiros Guarani, São Martinho e Total. "Um dos investimentos será o greenfield Usina Bom Jesus, em Goiás, através da Nova Fronteira", afirmou o presidente da Petrobras Biocombustível, Miguel Rossetto. As aquisições de usinas já existentes não estarão no foco principal da empresa.
Segundo ele, o plano de negócios da Petrobras revela o compromisso da empresa no crescimento do etanol dentro do mercado energético brasileiro. "O novo plano indica um crescimento de 30% nos recursos investidos em etanol", disse Rossetto. O plano anterior, de 2010 a 2014, previa investimentos de US$ 1,94 bilhão, dos quais US$ 600 milhões foram investidos em 2010. O executivo explica que o novo plano 2011/2015 prevê investimentos também de US$ 1,94 bilhão no período. "Se considerarmos o período de 2010 a 2015, temos um valor previsto para etanol de US$ 2,3 bilhão, crescimento de 30%", disse.
A meta da Petrobras Biocombustível é de chegar em 2015 com produção de 5,6 bilhões de litros de etanol e participação de 12% do mercado total do combustível renovável. No final de 2010, a produção da empresa era de 1 bilhão de litros de etanol e uma participação de 3,3% do mercado. Rossetto explica que a Petrobras Biocombustível vai continuar a estratégia de investir em até 50% do controle em parcerias. "Para cada dólar que investirmos, nossos parceiros também investirão um dólar, o que implica que investiremos em conjunto até US$ 3,8 bilhões em etanol, sendo US$ 1,94 bilhão via Petrobrás Biocombustível", disse.
Biocombustíveis
No total, os investimentos previstos da Petrobras Biocombustível para o período de 2011/15 é de US$ 4,1 bilhões, dos quais US$ 2,8 bilhões serão investimentos diretos em produção e pesquisa. Destes US$ 2,8 bilhões, US$ 1,94 bilhão irá para etanol, US$ 600 milhões para biodiesel e US$ 300 milhões para pesquisa e desenvolvimento.
Os outros US$ 1,3 bilhão serão investidos em logística de distribuição, na Logum, empresa responsável pela construção do alcoolduto que ligará o interior da região Centro-Oeste ao litoral sudeste, onde a Petrobras Biocombustível tem participação. Em relação ao plano de negócios anterior, a participação da Petrobrás Biocombustível manteve-se estável em 2% do total. "Este é um sinal da importância que os biocombustíveis têm dentro da companhia", disse Rossetto.
Em biodiesel, Rossetto disse que os investimentos serão concentrados nos projetos da empresa no Pará, a partir do óleo de palma, com o produto sendo direcionado para abastecer o Norte e Nordeste e também a produção de greendiesel em Portugal.

Melhora da nota do Brasil indica solidez, avalia Tesouro



GOVERNO NÃO PERDE TEMPO EM COMEMORAR ELEVAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DO PAÍS

O Tesouro Nacional informou hoje que a elevação na nota de crédito soberano do Brasil pela agência de classificação de risco japonesa Rating and Investiment Information (R&I) num momento de extrema volatilidade dos mercados financeiros internacionais demonstra a solidez da gestão da política econômica brasileira.Segundo o texto, a agência japonesa menciona no relatório alguns aspectos que se mantêm como desafios para novos avanços na classificação brasileira. Entre esses desafios estão a necessidade de aumento da poupança doméstica para permitir o crescimento dos investimentos e a continuidade da mitigação de pressões inflacionárias.
A agência elevou a nota brasileira de BBB- para BBB, com perspectiva estável. Esse BBB é o segundo nível dos países considerados grau de investimento. A R&I destacou como pontos para a elevação o significativo aumento da classe média brasileira, para a formação de um robusto mercado interno, com alto poder de consumo, e a diminuição do risco da economia de sofrer impactos mais profundos devido a mudanças drásticas no ambiente externo.Também contribuiu para a melhoria da nota brasileira a reafirmação do compromisso fiscal pelo novo governo e a condução ativa da política monetária pelo Banco Central.
Outro fator considerado foi a rápida recuperação da crise internacional de 2008, com expansão considerável de 7,5% do PIB em 2010 e a perspectiva de convergência para o crescimento potencial de 4% em 2012.
O Brasil tem o segundo grau de investimento por quatro agências internacionais. Além da japonesa, também atribuem a nota ao Brasil a Fitch, a Moody's e a JCR. Já para a Standard & Poor's, o País está no primeiro grau de investimento, com perspectiva positiva.

Regra clara é essencial para mercados de açúcar e etanol


O Brasil não é mais o maior produtor de etanol, em termos absolutos. Em 2010, produziu 27,4 bilhões de litros, enquanto os Estados Unidos produziram 50,1 bilhões de litros, a partir do milho.
No entanto, o Brasil é, por larga margem, o país que conseguiu substituir o maior percentual de sua gasolina por etanol (44,5%), enquanto os EUA atingiram apenas 9,5%.
Por aqui, o consumo de etanol combustível ocorre na forma de etanol hidratado, usado pela frota flex, e na forma de etanol anidro, adicionado à gasolina na proporção de 25% em volume, usado pela frota flex e pela frota dedicada à gasolina
.
Em 2020, quando a maior parte da frota de veículos leves for constituída por carros flex, um aumento de 10% na proporção da frota que usar etanol hidratado, ou gasolina contendo etanol anidro, aumentará o consumo em 7 bilhões de litros de etanol por ano, equivalentes a 11,3 milhões de toneladas de açúcar. Hoje, essa capacidade já existe, porém em escala menor.
O significado dessa conquista é enorme, trará grande vantagem ao Brasil e terá impacto importante no mercado mundial.
Em 2010, o Brasil representou 53% das exportações mundiais, com 28 milhões de toneladas de açúcar.
Portanto, em poucos anos o Brasil passará a ter capacidade inigualável de se adaptar a eventuais conjunturas adversas, através de ajustes no percentual da cana direcionado para a produção de açúcar ou de etanol.
A frota flex está se transformando em um verdadeiro sumidouro de sacarose (em inglês, um sugar sink), capaz de liberar ou absorver volumes significativos de sacarose de cana para um outro produto, à conveniência do preço relativo dos produtos.
Significa também que, no médio e no longo prazos, o açúcar tende a ficar cada vez mais dependente da dinâmica do mercado de combustíveis, que, por sua vez, não pode ficar sujeito a distorções, pelo menos não de forma prolongada.
Em 2011, a safra de cana no Brasil está sendo afetada, pelo terceiro ano consecutivo, por problemas climáticos.
Mas está também sofrendo o efeito da renovação dos canaviais abaixo dos níveis normais, pelo desestímulo que o preço da gasolina, mantido no mercado interno abaixo da cotação internacional, tem trazido aos produtores.
A manutenção da política atual, que privilegia a contenção do preço dos combustíveis nas bombas, sem oferecer um mecanismo de mercado que reconheça e premie a natureza renovável e limpa do etanol de cana em relação aos combustíveis de origem fóssil, pode trazer uma significativa perda de oportunidade para o país.
O risco é caminharmos na direção da anidrização do consumo de etanol, limitando o seu uso ao percentual adicionado à gasolina e abrindo mão da grande vantagem de arbitrar os mercados para garantir níveis de renda e investimento mais elevados.
O papel do governo deve ser o de estabelecer regras transparentes, estáveis e confiáveis. Somente assim o Brasil poderá continuar desfrutando de uma das maiores conquistas que conseguiu construir com o seu programa de energia renovável derivado da cana-de-açúcar.
O etanol de cana produzido no Brasil já substituiu um volume de gasolina que, avaliado a preços do mercado mundial, permitiu economia de US$ 261,4 bilhões entre 1975 e julho de 2011, equivalentes a 75% das atuais reservas internacionais.
O desafio é impedir que essa galinha dos ovos de ouro esmoreça.

PLINIO NASTARI é mestre e doutor em economia agrícola e presidente da Datagro Consultoria. 

Usinas programam importação recorde de etanol


O Brasil deve atingir neste ano um volume recorde de importação de etanol, chegando a 1,5 bilhão de litros.
Segundo o presidente da Pbio (Petrobras Biocombustíveis), Miguel Rossetto, o país já importou 400 milhões de litros e deverá continuar comprando lá fora, em pleno auge de colheita e moagem.
A maior parte da importação virá dos Estados Unidos -justamente o mercado que o Brasil, atual maior produtor de álcool do mundo, pretende conquistar.
A última vez que o país importou volume semelhante foi em 1995, quando 1,4 bilhão de litros foi adquirido no exterior
.
De acordo com Rossetto, as usinas -inclusive a Petrobras- são responsáveis pela importação. O motivo das aquisições recordes é a quebra da safra.
Ele diz que o Brasil continua exportando parte do álcool que produz, apesar da falta de oferta no mercado interno, porque precisa cumprir contratos já fechados.
A tendência para o ano que vem, no entanto, é de uma importação menor de etanol.
A expectativa é que os preços do açúcar fiquem menos atrativos do que os do álcool, estimulando as usinas a produzir mais etanol.
Para assegurar maior oferta de etanol nos próximos anos, a Petrobras irá investir US$ 1,9 bilhão até 2015 no setor, sendo 70% desse valor em novos canaviais, e os 30% restantes, em aquisições de usinas.

Cana terá quebra de 8,39% nesta safra


Estimativa é da entidade que representa o setor; situação deve piorar o deficit de etanol para o mercado interno
Queda dos preços levou à redução de investimento, diz indústria; colheita deve ser antecipada


A safra de cana-de-açúcar deste ano no centro-sul do país terá quebra de 8,39% em relação à do ano passado.
Isso deverá antecipar o encerramento da colheita, aumentar a entressafra e desabastecer o mercado.
Serão 46,71 milhões de toneladas a menos para moer do que o esperado para esta safra, de acordo com a nova projeção da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), divulgada ontem.
A nova projeção indica uma safra de 510,24 milhões de toneladas, ante a previsão inicial de 556,95 milhões.
Segundo Maurilio Biagi Filho, conselheiro da Unica, as usinas do centro-sul, em especial as da região de Ribeirão Preto, vão antecipar o fim da colheita em até três meses. O usual é acabar no início de dezembro.
A última vez que algo assim aconteceu foi em 2000, quando houve quebra superior a 20% da produção -ou 60 milhões de toneladas à época.
"Houve uma queda de preços, refletindo na falta de investimentos em renovação da cana e, consequentemente, menos produto para moer", disse Biagi Filho.
Um estudo da USP de Ribeirão, divulgado em abril pela
 Folha, indicou a necessidade de 15 novas usinas por ano para cobrir a demanda por etanol.
Segundo o professor responsável pelo estudo, Marcos Fava Neves, o deficit anual de etanol no país é de 5 bilhões de litros. A quebra anunciada ontem piora ainda mais as perspectivas do setor.

O encerramento antecipado da colheita vai levar a entressafra de seis meses, pressionando a inflação.
O álcool ficará mais caro por falta do produto e consumidores de carros flex migrarão para a gasolina, que já está mais cara por conter álcool em sua composição, segundo Sergio Torquato, coordenador de cana do IEA (Instituto de Economia Agrícola).
Para Neves, haverá desabastecimento interno. "Teremos que importar gasolina e etanol dos EUA e haverá pressão nos preços."
Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), do Rio, considera que o governo deverá administrar o estoque de passagem da entressafra para minimizar o impacto.
"Os preços continuarão elevados nos próximos três anos", afirmou Pires.
Ele disse que será preciso avaliar o cenário mundial, que está entrando em uma crise econômica, e o aquecimento interno do consumo. "Se o preço do petróleo cair, pode ser mais vantajoso importar gasolina do que álcool", disse Pires.

PRODUTIVIDADE
A cana também está rendendo menos por hectare na safra atual. A produtividade no acumulado deste ano caiu 20%, se comparada ao mesmo período do ano anterior.

Nova estimativa de produção de cana é de 510 mi de toneladas


Total representa redução de 4,36% em relação à última revisão  e queda de 8,39% sobre o valor final da safra 2010/2011


A produção de cana-de-açúcar do Centro-Sul da safra 2011/12 deve ficar em 510,24 milhões de toneladas, de acordo com a mais nova estimava da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), realizada em conjunto com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), e demais sindicatos e associações da região Centro-Sul do País. A redução é de 4,36% em relação à última revisão (533,50 milhões de toneladas), e queda de 8,39% sobre o valor final da safra 2010/2011 (556,95 milhões de toneladas). Em relação à estimativa inicial de 568,5 milhões de toneladas, a queda atinge 58,5 milhões de toneladas. O número da Única é menor também que a estimativa da Datagro divulgada na segunda-feira, de 517,36 milhões de toneladas.

O diretor técnico da UNICA, Antonio de Padua Rodrigues, explica que "os dados levantados em julho mostraram que a geada e o florescimento da cana impactaram a produtividade agrícola do canavial com maior intensidade do que havíamos inicialmente previsto." Esses fatores também promoveram uma alteração no cronograma de colheita das unidades, já que muitas precisaram antecipar este trabalho em áreas atingidas pela geada e pelo florescimento, o que agravou ainda mais a situação.

De acordo com dados apurados pelo CTC, a produtividade agrícola da área colhida em julho foi de 70,80 toneladas de cana por hectare, queda de 17,48% em relação ao valor observado em julho de 2010. No acumulado desde o início da safra, a produtividade agrícola ficou em 74,10 toneladas de cana por hectare, contra 92,80 observados em igual período no último ano (redução de 20,15%).

Moagem das usinas sócias poderá subir 28% até 2015


Atualmente com capacidade industrial para processar 115 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por safra, as 48 unidades associadas da Copersucar tocam projetos - em fases diferentes, de planejamento a execução - para ampliar a capacidade de suas unidades já existentes em mais 32 milhões de toneladas até 2015.

Como se trata de ampliação de usinas já estabelecidas, os investimentos previstos são de US$ 80 por tonelada instalada, em torno de metade do custo de implantação de usina nova, explica Luís Roberto Pogetti, presidente do conselho de administração da Copersucar.
Os projetos, mapeados pela companhia, também contemplam a ampliação de canaviais para pôr fim à ociosidade do parque fabril que, na safra 2011/12 será de 15 milhões de toneladas de cana.
Já a entrada de novas sócias está suspensa, por enquanto, sem previsão de reabertura, diz Pogetti. A empresa pretende rever essa política, o que passará certamente por aumento do valor de entrada na sociedade. "A empresa adquiriu uma condição logística que agregou muito valor à companhia. O próprio valor que o mercado atribuiu à Copersucar neste processo de ida à bolsa de valores também tornou a associação mais cara", acrescenta.
A Copersucar foi fundada em 1959 e atualmente 60% de suas associadas são fundadoras. "Há uma relação consistente", afirma o executivo quando questionado sobre a garantia de oferta de açúcar e etanol no longo prazo. As outras entraram no negócio ao longo dos anos seguintes e, de acordo com ele, há baixa rotatividade.
As saídas mais significativas foram a do grupo São Martinho, em 2008, que abriu capital um ano antes e deu direcionamento próprio para sua estratégia de comercialização. Em 1999, saiu o grupo São João (USJ) e em 2004, a Santa Cruz. O trio, que soma capacidade para moer 23 milhões de toneladas de cana, criou em 2008 um consórcio de comercialização, a Allicom, que está em fase de extinção neste mês.
Por outro lado, desde 2008, quando deixou de ser uma cooperativa e se transformou em uma S.A., a Copersucar atraiu 16 novos grupos sucroalcooleiros para seu modelo e agregou produtos finais (açúcar e álcool) equivalentes à moagem de 45 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Na época, a empresa tinha 33 usinas com moagem de 70 milhões de toneladas.
"Vínhamos crescendo a uma taxa média de 23% em termos de capacidade de moagem das sócias", diz o executivo. (FB)