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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Regra clara é essencial para mercados de açúcar e etanol


O Brasil não é mais o maior produtor de etanol, em termos absolutos. Em 2010, produziu 27,4 bilhões de litros, enquanto os Estados Unidos produziram 50,1 bilhões de litros, a partir do milho.
No entanto, o Brasil é, por larga margem, o país que conseguiu substituir o maior percentual de sua gasolina por etanol (44,5%), enquanto os EUA atingiram apenas 9,5%.
Por aqui, o consumo de etanol combustível ocorre na forma de etanol hidratado, usado pela frota flex, e na forma de etanol anidro, adicionado à gasolina na proporção de 25% em volume, usado pela frota flex e pela frota dedicada à gasolina
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Em 2020, quando a maior parte da frota de veículos leves for constituída por carros flex, um aumento de 10% na proporção da frota que usar etanol hidratado, ou gasolina contendo etanol anidro, aumentará o consumo em 7 bilhões de litros de etanol por ano, equivalentes a 11,3 milhões de toneladas de açúcar. Hoje, essa capacidade já existe, porém em escala menor.
O significado dessa conquista é enorme, trará grande vantagem ao Brasil e terá impacto importante no mercado mundial.
Em 2010, o Brasil representou 53% das exportações mundiais, com 28 milhões de toneladas de açúcar.
Portanto, em poucos anos o Brasil passará a ter capacidade inigualável de se adaptar a eventuais conjunturas adversas, através de ajustes no percentual da cana direcionado para a produção de açúcar ou de etanol.
A frota flex está se transformando em um verdadeiro sumidouro de sacarose (em inglês, um sugar sink), capaz de liberar ou absorver volumes significativos de sacarose de cana para um outro produto, à conveniência do preço relativo dos produtos.
Significa também que, no médio e no longo prazos, o açúcar tende a ficar cada vez mais dependente da dinâmica do mercado de combustíveis, que, por sua vez, não pode ficar sujeito a distorções, pelo menos não de forma prolongada.
Em 2011, a safra de cana no Brasil está sendo afetada, pelo terceiro ano consecutivo, por problemas climáticos.
Mas está também sofrendo o efeito da renovação dos canaviais abaixo dos níveis normais, pelo desestímulo que o preço da gasolina, mantido no mercado interno abaixo da cotação internacional, tem trazido aos produtores.
A manutenção da política atual, que privilegia a contenção do preço dos combustíveis nas bombas, sem oferecer um mecanismo de mercado que reconheça e premie a natureza renovável e limpa do etanol de cana em relação aos combustíveis de origem fóssil, pode trazer uma significativa perda de oportunidade para o país.
O risco é caminharmos na direção da anidrização do consumo de etanol, limitando o seu uso ao percentual adicionado à gasolina e abrindo mão da grande vantagem de arbitrar os mercados para garantir níveis de renda e investimento mais elevados.
O papel do governo deve ser o de estabelecer regras transparentes, estáveis e confiáveis. Somente assim o Brasil poderá continuar desfrutando de uma das maiores conquistas que conseguiu construir com o seu programa de energia renovável derivado da cana-de-açúcar.
O etanol de cana produzido no Brasil já substituiu um volume de gasolina que, avaliado a preços do mercado mundial, permitiu economia de US$ 261,4 bilhões entre 1975 e julho de 2011, equivalentes a 75% das atuais reservas internacionais.
O desafio é impedir que essa galinha dos ovos de ouro esmoreça.

PLINIO NASTARI é mestre e doutor em economia agrícola e presidente da Datagro Consultoria. 

Usinas programam importação recorde de etanol


O Brasil deve atingir neste ano um volume recorde de importação de etanol, chegando a 1,5 bilhão de litros.
Segundo o presidente da Pbio (Petrobras Biocombustíveis), Miguel Rossetto, o país já importou 400 milhões de litros e deverá continuar comprando lá fora, em pleno auge de colheita e moagem.
A maior parte da importação virá dos Estados Unidos -justamente o mercado que o Brasil, atual maior produtor de álcool do mundo, pretende conquistar.
A última vez que o país importou volume semelhante foi em 1995, quando 1,4 bilhão de litros foi adquirido no exterior
.
De acordo com Rossetto, as usinas -inclusive a Petrobras- são responsáveis pela importação. O motivo das aquisições recordes é a quebra da safra.
Ele diz que o Brasil continua exportando parte do álcool que produz, apesar da falta de oferta no mercado interno, porque precisa cumprir contratos já fechados.
A tendência para o ano que vem, no entanto, é de uma importação menor de etanol.
A expectativa é que os preços do açúcar fiquem menos atrativos do que os do álcool, estimulando as usinas a produzir mais etanol.
Para assegurar maior oferta de etanol nos próximos anos, a Petrobras irá investir US$ 1,9 bilhão até 2015 no setor, sendo 70% desse valor em novos canaviais, e os 30% restantes, em aquisições de usinas.

Cana terá quebra de 8,39% nesta safra


Estimativa é da entidade que representa o setor; situação deve piorar o deficit de etanol para o mercado interno
Queda dos preços levou à redução de investimento, diz indústria; colheita deve ser antecipada


A safra de cana-de-açúcar deste ano no centro-sul do país terá quebra de 8,39% em relação à do ano passado.
Isso deverá antecipar o encerramento da colheita, aumentar a entressafra e desabastecer o mercado.
Serão 46,71 milhões de toneladas a menos para moer do que o esperado para esta safra, de acordo com a nova projeção da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), divulgada ontem.
A nova projeção indica uma safra de 510,24 milhões de toneladas, ante a previsão inicial de 556,95 milhões.
Segundo Maurilio Biagi Filho, conselheiro da Unica, as usinas do centro-sul, em especial as da região de Ribeirão Preto, vão antecipar o fim da colheita em até três meses. O usual é acabar no início de dezembro.
A última vez que algo assim aconteceu foi em 2000, quando houve quebra superior a 20% da produção -ou 60 milhões de toneladas à época.
"Houve uma queda de preços, refletindo na falta de investimentos em renovação da cana e, consequentemente, menos produto para moer", disse Biagi Filho.
Um estudo da USP de Ribeirão, divulgado em abril pela
 Folha, indicou a necessidade de 15 novas usinas por ano para cobrir a demanda por etanol.
Segundo o professor responsável pelo estudo, Marcos Fava Neves, o deficit anual de etanol no país é de 5 bilhões de litros. A quebra anunciada ontem piora ainda mais as perspectivas do setor.

O encerramento antecipado da colheita vai levar a entressafra de seis meses, pressionando a inflação.
O álcool ficará mais caro por falta do produto e consumidores de carros flex migrarão para a gasolina, que já está mais cara por conter álcool em sua composição, segundo Sergio Torquato, coordenador de cana do IEA (Instituto de Economia Agrícola).
Para Neves, haverá desabastecimento interno. "Teremos que importar gasolina e etanol dos EUA e haverá pressão nos preços."
Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), do Rio, considera que o governo deverá administrar o estoque de passagem da entressafra para minimizar o impacto.
"Os preços continuarão elevados nos próximos três anos", afirmou Pires.
Ele disse que será preciso avaliar o cenário mundial, que está entrando em uma crise econômica, e o aquecimento interno do consumo. "Se o preço do petróleo cair, pode ser mais vantajoso importar gasolina do que álcool", disse Pires.

PRODUTIVIDADE
A cana também está rendendo menos por hectare na safra atual. A produtividade no acumulado deste ano caiu 20%, se comparada ao mesmo período do ano anterior.