| Para entidades do agronegócio, empresas e governo precisam discutir formas de retomar expansão do setor Para consultores, produtores e empresários ouvidos pela reportagem, a recuperação somente será possível com um novo ciclo de desenvolvimento semelhante ao da década passada, quando a produção e o número de unidades dobraram, mas foram insuficientes para atender à demanda. "Paraequilibrar a oferta e demanda nos mercados internos e externo, precisaremos moer 400 milhões de toneladas de cana em dez anos", diz Sérgio Prado, representante da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto. Para isso, diz, serão necessários R$ 80 bilhões para serem investidos no campo, na renovação e no plantio de novas áreas de canaviais e na expansão e instalação de novas unidades industriais. "Isso equivale à instalação de dez usinas com capacidade para moer 4 milhões de toneladas por ano", diz. Na safra 2011/2012, estava prevista ainstalação de cinco novas unidades. Três delas tiveram de ser transferidas para a próxima safra (2012/2013). Segundo o consultor Luiz Carlos CorrêaCarvalho, vice-presidente da Associação Brasileiro do Agronegócio, essa recuperação precisa começar com a imediata renovação dos canaviais, que demoram entre dois e três anos para produzir novamente e cuja área de envelhecimento ainda não é possível de ser calculada. Para a pesquisadora Míriam Bacchi, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), "o momento é de repensar a política para o setor". Segundo ela, governo e iniciativa privada precisam estabelecer uma agenda para a retomada dos investimentosque dê segurança aos investidores e que haja investimentos em tecnologia para aumentar ganhos de produtividade e reduzir custos de produção. "É preciso uma política eficiente de estoques, uma revisão da política tributária com desoneração do ICMS em alguns Estados, investimentos em novas unidades e expansão do plantio, com vistas a reduzir ao menor custo a produção do etanol. É preciso também uma política clara de combustível paradar segurança ao investidor e que as intervenções governamentais não se deem diretamente, como ocorreu este ano, quando o governo usou a BR Distribuidora para controlar preços", diz. Diálogo. Mas, para chegar a um consenso, é necessário que as lideranças da cadeia se unam e tenham diálogo com o governo federal, o que não vem ocorrendo de forma satisfatória. "É preciso que o setor encontre uma união, porque hoje ele está dividido por interesses individuais - não no caso de São Paulo, mas de outros Estados", diz Celso Junqueira, presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), que reúne 70 unidades de seis Estados. "Há necessidade de se estabelecer diálogo mais eficiente com o governo federal, que ainda julga o setor como sendo "do mal"", diz. "Um exemplo são essas revisões de safra, encaradas pelo governo como se o setor estivesse omitindo informações, o que não é verdade", diz. Outro problema, segundo Junqueira, está na falta de democratização dos financiamentos oficiais. "Apenas as grandes empresas tiveram acesso ao BNDES e Banco do Brasil, as mesmas que têm acesso aos financiamentos de outros outros bancos." |
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Investimentos necessários para recuperação chegam a R$ 80 bi
Cana brasileira já não é a mais barata
Brasil perdeu a liderança no ranking de menor custo de produção do mundo para países como Austrália, África do Sul e Tailândia
A abundância de terra agricultável, o clima favorável e a vasta experiência do produtor já não são mais ingredientes suficientes para garantir a enorme competitividade que fez do Brasil o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Nos últimos três anos, a combinação entre alta dos custos internos, câmbio e a euforia dos investidores com o etanol acabaram tirando o País da liderança do ranking de menor custo de produção da cana.
Na frente do Brasil, já estão Austrália, África do Sul e Tailândia. Há quem diga que Colômbia e Guatemala também têm conseguido produzir açúcar a um custo menor, mas eles não constam nas estatísticas oficiais. Embora sejam países com pequena produção comparada ao Brasil, o resultado reflete o momento mais delicado da indústria nacional de cana-de-açúcar. A escalada dos preços do etanol, por exemplo, levou o governo a anunciar na semana passada a redução da mistura do combustível na gasolina - uma forma de ampliar a oferta de álcool hidratado na bomba.
No açúcar, embora os preços estejam elevados no mercado internacional, não há grandes problemas. Mas o aumento do custo do Brasil, que responde por quase 50% do mercado mundial, tem reanimado até mesmo a indústria de açúcar de beterraba na Europa, afirma o presidente da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-sul do Brasil (Orplana), Ismael Perina. "Há sete anos, esse produto estava inviável. Agora voltou a ficar viável, o que é ruim para o País."
Segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), de 2005 para cá, os custos de produção cresceram cerca de 40% - de R$ 42 por tonelada de cana para R$ 60. Uma série de fatores explicam esse avanço. Alguns deles provocados pela extensa lista do chamado custo Brasil, como a valorização do real e a carga tributária elevada, que reduz a competitividade das empresas nacionais. Outros foram criados pela própria expansão do setor, como a falta da mão de obra.
O problema surgiu com o início da mecanização da colheita de cana, que deverá atingir 100% em 2014. Embora seja mais barato, o processo pegou o setor despreparado. Não havia frota suficiente para fazer a colheita e a mão de obra, antes acostumada a usar facões para cortar a cana, não sabia manusear tratores e colheitadeiras equipadas com alta tecnologia. Resultado disso foi o aumento no preço das máquinas e dos salários do setor.
"Além disso, o canavial não estava preparado para a colheita mecanizada, que exige um espaçamento diferente no plantio. Isso reduziu de forma significativa a produtividade", afirma o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues. Até hoje, diz ele, não se encontrou uma solução econômica para a palha que é retirada durante a colheita. "Se for junto com a cana para a usina, isso aumenta o custo de transporte. Se ficar no canavial, pode trazer pragas."
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