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quinta-feira, 31 de março de 2011

Álcool da nova safra faz o preço cair 9% em usinas do centro-sul

Combustível chegou a ser vendido a R$ 2,80/litro; baixa deve demorar a chegar ao consumidor

Queda ocorre porque a produção vai crescer e mais consumidores estão abastecendo seus veículos com gasolina

O preço do álcool mudou de tendência. Após ter registrado preços elevados nas usinas, volta a cair na região centro-sul. A alta nas usinas levou o consumidor paulistano a pagar até R$ 2,80 por litro nos postos, onde a queda não deve ser imediata.

Ontem, o preço de referência do álcool hidratado foi de R$ 1,537 por litro em Paulínia (interior de SP), com recuo de 9,3% em relação ao pico de R$ 1,694 da quarta-feira da semana passada.

O preço atual do hidratado praticado pelas usinas supera em 100% o de há um ano.
É o que mostra o indicador diário de preços do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), que apura o valor de referência do álcool hidratado, tendo como base Paulínia.
Mirian Bacchi, coordenadora das pesquisas de etanol do Cepea, atribui a queda a dois motivos básicos.

"Primeiro, começa a chegar ao mercado o produto da nova safra. Segundo, parte dos consumidores que ainda utilizavam álcool hidratado começou a perceber que, nos preços atuais, o produto deixou de ser atrativo em relação à gasolina."
Analistas de mercado acrescentam outros fatores para a queda. As poucas usinas que, com caixa, ainda mantinham estoques -embora pequenos- acabaram desovando o combustível no mercado diante da perspectiva de recuo dos preços nas próximas semanas.

Além disso, a possível importação de álcool dos Estados Unidos também serviu para conter a alta nos preços.

Olhando para a safra que se inicia, Bacchi diz que a produção de álcool deste ano não dever ser muito maior do que a obtida na safra que se encerra.
Além disso, deverá haver um redirecionamento de parte da cana-de-açúcar para a produção de açúcar, em detrimento da de álcool.

ALTAS E BAIXAS
Cientes desse cenário, os participantes do mercado futuro de etanol hidratado da BM&FBovespa apostam em maior estabilidade dos preços neste ano, ou seja, os preços médios praticados nas usinas devem superar os da safra que se encerra.

Cotado atualmente por R$ 1,54 nas usinas, conforme pesquisa do Cepea, o preço do hidratado deve cair para R$ 1,13 em abril e ficar próximo de R$ 1 de maio a outubro. Volta a subir em dezembro (para R$ 1,16) e atinge o pico em fevereiro de 2012: R$ 1,20 por litro, bem abaixo do atual R$ 1,54 por litro.
Isso é o que o mercado aposta. Pode não ocorrer, mas uma coisa é certa: os consumidores vão pagar mais pelo produto.

Na safra que se encerra, o Cepea registrou preços de R$ 0,82 por litro no final de março. O combustível voltou a subir em abril, mas perdeu força a partir de maio, com os negócios sendo efetuados a valores inferiores a R$ 0,80 por litro.
A redução de oferta, devido à moagem menor de cana-de-açúcar e ao redirecionamento da matéria-prima para a produção de açúcar, provocou a antecipação dos reajustes de preços nas usinas.
No final de setembro, o álcool já era negociado acima de R$ 1 por litro, atingindo R$ 1,694 há uma semana.

Falta ao Brasil uma política consistente para os combustíveis

ANÁLISE PETRÓLEO
O mercado de combustíveis no Brasil esteve conturbado nas últimas semanas. O etanol continua na sua trajetória de preços crescentes, e isso está obrigando à importação de 200 milhões de litros do mercado americano.
É paradoxal ver o Brasil importar etanol de milho -que custa três vezes mais do que o nosso- dos EUA.
Outro fato é o anúncio da Petrobras de que importará 1,5 milhão de litros de gasolina em abril -o Brasil sempre foi exportador. Isso mostra, mais uma vez, que o país não tem política de combustíveis.
No primeiro choque do petróleo, o governo, ao não repassar ao diesel o aumento do barril, provocou a "dieselização" da frota -e lançou o Proálcool, com a obrigatoriedade de misturar etanol anidro à gasolina.
Até então, o combustível mais consumido no Brasil era a gasolina, e as refinarias foram construídas para maximizar a produção desse combustível. A "dieselização" provocou sobra de gasolina, e o país passou a importar diesel.
No segundo choque, em 1979, o governo apresenta a segunda fase do Proálcool, com o lançamento do álcool hidratado para substituir a gasolina -e continua o movimento de "dieselização".
A partir de 1986, com a queda do preço do petróleo, o etanol hidratado perdeu mercado para a gasolina e quase desapareceu.
Com a chegada ao mercado dos carros flex e o aumento do preço do petróleo, o álcool, agora chamado de etanol, ressurgiu como substituto da gasolina.
Eis que surge a atual crise e o que se verifica é que a gasolina não é, e parece que nem será, a alternativa ao etanol.
As razões para o que vem acontecendo remonta às medidas tomadas pelo governo Lula para combater a crise econômica no final de 2008.
Naquela época,
o governo incentivou a venda de automóveis através da isenção de PIS/Cofins e dando prazos maiores para a compra de carros novos. Isso provocou uma grande venda, na quase totalidade, de veículos flex.
Enquanto isso, nem a produção de etanol nem a de gasolina acompanharam o crescimento da frota flex. Em 2010, o consumo de combustíveis cresceu 8,5% diante de um PIB de 7,5%.

Também colaborou o fato de as usinas produzirem mais açúcar, com preços altos no mercado internacional nos últimos três anos. Mais um equívoco tem sido a política de preços da gasolina. O fato de a Petrobras não reajustar o preço da gasolina em função do mercado internacional provoca a inexistência de preços relativos.
Ou seja, neste momento em que o preço do barril supera os US$ 100, a gasolina no Brasil é das mais baratas do mundo. Com isso, a sua maior competitividade frente ao etanol é artificial.
O Brasil carece de uma política de combustíveis, caso contrário a ciclotimia vai continuar -e sempre quem paga a conta é o consumidor. Com a palavra, o governo.

ADRIANO PIRES é diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura).