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terça-feira, 29 de março de 2011

Demanda por álcool exigiria 15 usinas a mais em operação

Só assim seria possível segurar preços, segundo cálculo de professor da FEA/USP de Ribeirão Preto

País tem hoje apenas 4 unidades para entrar em operação neste ano; outros 5 projetos não têm previsão de data


O Brasil precisaria de ao menos 15 novas usinas produtoras exclusivamente de álcool -e já em funcionamento- para conseguir aumentar a oferta do combustível e evitar a alta histórica no preço do produto.

O cálculo -feito com base na produção de carros bicombustíveis e na oferta de etanol- é de Marcos Fava Neves, professor de planejamento da FEA/USP de Ribeirão Preto.

A realidade, porém, é outra para o setor, já que há somente quatro usinas sendo planejadas para entrar em operação ainda neste ano na região centro-sul do Brasil, de acordo com a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar).

Neste mês, com as 436 usinas em operação no país, o país viu o preço do etanol disparar nos postos de combustíveis, ultrapassando a barreira dos R$ 2,80.

A Unica diz que há outros cinco projetos de usinas, mas que não é possível dizer quando sairão do papel, afirma Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da entidade.

"Em empresas fabricantes de maquinário para usina, hoje não há nenhum pedido novo de projeto, de investimento, que teria resposta daqui a três ou quatro anos", afirmou Rodrigues.

Das quatro novas usinas, três estão em Mato Grosso do Sul e uma em Goiás.
Todas iniciarão as atividades produzindo álcool hidratado -para abastecer veículos flex-, mas no futuro poderão fazer açúcar.

PERFIL DAS USINAS
Das 436 usinas listadas no Ministério da Agricultura, 301 são mistas, ou seja, fabricam etanol e açúcar -dependendo da remuneração do mercado, a cana é destinada para um ou outro.

Outras 122 usinas só fazem etanol, e 12, açúcar.
Se o mercado depender de novas usinas para ter alta na produção de etanol, a espera será longa.

Uma usina, após anunciada, precisa de ao menos três anos para ter a primeira safra, que não mói 30% da capacidade instalada, segundo o diretor da Unica.

"Para atingir 100%, só na terceira ou quarta safras. O que vamos crescer até 2012 ou 2013 é fruto de completar a ociosidade dessas plantas que já operam e a volta da produtividade na média histórica", afirmou.

Rodrigues disse, no entanto, discordar da necessidade de 15 usinas para elevar a oferta de etanol.

"A alta do preço na entressafra depende de política para regular o mercado", afirmou o diretor da Unica.

Na visão de Fava Neves, porém, o ritmo lento da expansão das usinas é "a pior notícia que se pode ter" e fará com que "dificilmente" o etanol vendido nos postos volte à faixa dos R$ 1,20.

Aumento do etanol pede investimento no setor, diz USP

Para docente da AgroFEA, preço recorde nos postos é prova de que as empresas da área têm que investir mais

Faculdade lançou ontem o primeiro índice que mede satisfação e desempenho dos fornecedores do setor

O preço recorde do álcool nos postos é a prova de que são necessários mais investimentos no setor sucroalcooleiro para aumentar a produção do combustível no país e evitar esse tipo de alta na entressafra da cana-de-açúcar.


Essa é a análise do professor de estratégias competitivas Roberto Fava Scare, coordenador do AgroFEA (Núcleo de Pesquisas em Agronegócios da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), da USP Ribeirão.

Ontem, em parceria com a Fundace (fundação de pesquisa da universidade) e a empresa Multiplus Feiras e Eventos, o núcleo lançou o primeiro índice que mede a satisfação e o desempenho dos fornecedores do setor sucroalcooleiro.

A pesquisa com 125 empresas de todo o país identificou um índice de 0,69 -em uma escala de 0 a 1-, o que representa que os empresários estão otimistas e acreditam na prosperidade do setor nos próximos meses, diz Scare.

Apurado em fevereiro, o índice não levou em conta a alta histórica no preço do etanol nos postos de combustíveis, mas a próxima medição em abril, segundo o professor, deve apontar ainda mais confiança do empresariado justamente devido à situação.
O raciocínio, segundo ele, é o seguinte: o produto está caro pela baixa oferta, o que significa que serão necessários mais investimentos e, portanto, há expectativa de crescimento do setor.

"O otimismo será ainda maior. Essa situação [falta de etanol e aumento do preço] mostra que é preciso retomar os investimentos para ampliar a produção", afirmou o coordenador do AgroFEA.

Para ele, a produção atual de etanol e a demanda -gerada a partir do crescimento de carros bicombustíveis- indica a necessidade de construção de novas usinas produtoras de álcool.

Cálculo da FEA mostra que o país precisa ao menos de 15 novas usinas produtoras exclusivamente de álcool -e já em funcionamento- para conseguir aumentar a oferta do combustível e evitar a alta no preço nos postos.

Os usineiros rebatem o cálculo. Eles entendem que o equilíbrio entre oferta e demanda depende muito mais de políticas de regulamentação do mercado.

Fornecedores para usinas estão confiantes

Para chegar ao índice de 0,69 de confiança dos fornecedores do setor sucroenergético, os responsáveis pelo levantamento consideraram oito itens -com respostas dos próprios empresários- para embasar o resultado.

O objetivo, de acordo com Maurício Jorge Pinto de Souza, professor do Departamento de Economia da FEA e responsável pela metodologia, foi encontrar uma ponderação que refletisse a maneira como os gestores avaliam condições do mercado.

As 125 empresas que responderam à pesquisa avaliaram aspectos atuais e expectativas sobre a economia brasileira, o sistema agroindustrial sucroenergético, as condições dos fornecedores do setor como um todo e de suas próprias empresas.
Para cada um dos oito itens (quatro atuais e quatro futuros), atribuiu-se um valor e, por meio de uma média simples, definiram-se dois índices (um atual e outro futuro). Por fim, uma média ponderada entre eles fornece o nível de confiança.

Valores acima de 0,50 pontos indicam que os empresários estão confiantes. Segundo Souza, os pontos atribuídos às expectativas têm peso maior no cálculo.
Os 0,69 obtidos em fevereiro indicam uma confiança dos fornecedores do setor maior que a dos empresários em geral, que foi de 0,61 no primeiro bimestre, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Pequenos reclamam da exigência de certificação

A certificação do conteúdo local preocupa pequenos operadores e fornecedores da indústria de petróleo, que veem o mecanismo como fator de aumento de custos. A medida, introduzida a partir da 7ª rodada de licitações, em 2005, exige que o concessionário obtenha dos fornecedores de bens e serviços as devidas certificações de seus produtos. As atividades de certificação são executadas por entidades credenciadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Paulo Buarque Guimarães, secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip), disse que a certificação está elevando o custo dos projetos. Segundo ele, está sendo difícil obter os certificados de conteúdo local porque muitas vezes o fornecedor não está preparado. Guimarães disse que, em média, os associados da Abpip só certificaram até agora entre 15% e 20% dos itens certificáveis.

Já a Petrobras tomou a iniciativa de contratar certificação de cumprimento do conteúdo local mesmo para projetos cujos contratos foram assinados antes da exigência da ANP, em 2005. "A Petrobras foi muito proativa nisso. Está aferindo mesmo em projetos em que não precisa. E com isso ela está enxergando melhor a metodologia de conteúdo local. A Petrobras está vendo o que de fato é um problema e o que não é", afirmou Magda Chambriard, diretora da ANP.

Especialistas próximos de empresas de petróleo dizem, no entanto, que é difícil a verificação do compromisso de conteúdo local. Antes da 7ª rodada a comprovação do conteúdo perante a ANP era declaratória. Bastava o concessionário apresentar uma nota fiscal de empresa brasileira com declaração do fornecedor de que o item era de origem nacional.

Guimarães, da Abpip, diz que a entidade propõe que não haja exigência de certificação na fase de exploração e que na fase de desenvolvimento da produção itens abaixo de determinado valor não deveriam ter certificação. Ele criticou o conteúdo local: "O mecanismo não é suficiente para ter uma indústria forte, só está aumentando o custo Brasil." (FG e CS).