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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quanta irritação

DANUZA LEÃO

AOS CEM DIAS do governo Dilma é impressionante o número de vezes em que saiu na imprensa "Dilma se irritou", "Dilma ficou irritada".

A presidente sempre teve fama de geniosa, mas foram tantas as ocasiões em que seu temperamento virou notícia que não dá para acreditar. É bom que ela seja sóbria e fale pouco, o que está sendo um alívio geral. Mas só assim, de memória: Dilma se irritou quando houve o apagão; se irritou com uma tradutora em NY; se irritou com Henrique Meirelles porque ele teria divulgado que imporia condições para ficar no Banco Central; se irritou quando, durante a campanha, foi questionada sobre a volta da CPMF e sobre o aborto; se irritou com a assessoria quando trocou o nome de uma cidade do Nordeste. Essas são apenas algumas das irritações públicas, imagine as privadas.

Lula falava muito, mas só sobre o que queria; não disse nem vai dizer uma só palavra sobre os passaportes especiais concedidos à sua família ítalo-brasileira. Já o estilo de Dilma é confortável. Como fala pouco, não precisa explicar os gastos dos cartões corporativos da Presidência, que aumentaram 8,2% em apenas cem dias, nem as ações do Ministério da Pesca, minha grande curiosidade há anos. Quais estarão sendo os feitos de Ideli Salvatti?

Quem trabalha para o governo não pode piar, pois algumas das irritações presidenciais acabaram em demissão ou em não nomeação -de quem a irritou, é claro. Dilma e Lula não são iguais, mas um traço de seus perfis é parecido: eles não se esquecem dos que, em algum momento, discordaram de seus pensamentos, e esperam a hora para dar o troco. Quando ela chega, é quase como dizia Maquiavel: a bondade deve ser feita aos poucos, a maldade, de uma vez só. Quase: a diferença é que para os amigos, aliados e correligionários, a bondade é tão grande, que basta uma (para cada).

Será que existe no fundo, lá no fundo, um espírito de vingança? Seria um absurdo achar que Dilma tem, em seu caráter, traços ditatoriais -logo ela, que tanto sofreu com a ditadura militar. Mas dentro de um contexto humano, é compreensível que ela se comporte, agora, um pouco como os militares se comportaram. Eles achavam que podiam tudo, agora é ela quem (acha que) pode tudo; faz sentido. Às vezes sua vontade -ou a do seu partido, não sei- extrapola o aceitável quando se fala de uma democracia plena. Brizola -lembra dele, presidente - disse, na primeira posse de Lula: "isso vai ser uma ditadura stalinista".

Presidente, pegue mais leve.
Mesmo tendo recebido uma enorme aprovação, lembre-se que muita gente não votou na senhora. Obrigar o Bradesco a votar pela troca do presidente da Vale -que teve uma atuação brilhante- sob a ameaça de não haver renovação de um contrato que vencerá no fim do ano é inaceitável. E pior: o banco aceitou. Dilma deve estar irritada com as opiniões do ministro Mantega e do presidente da Petrobras, que diferem: um diz que a gasolina vai aumentar, o outro que não vai, e ela não gosta disso.

Não é razoável que um/uma presidente fique irritado/irritada com pessoas que não rezam pela sua cartilha e acham que o Brasil não é um feudo. É um país, e tem dono: pertence aos quase 200 milhões de brasileiros.

Só pressão social pode equilibrar preço do álcool

ENTREVISTA CÍCERO JUNQUEIRA FRANCO 
USINEIRO E EX-COORDENADOR DO PROÁLCOOL DIZ QUE MEDIDAS DO GOVERNO PARA CONTER ALTA DO ETANOL NÃO VÃO DAR RESULTADO

ARARIPE CASTILHO
DE RIBEIRÃO PRETO

O etanol ainda está caro nos postos -apesar da recente queda, depois de 18 semanas em alta- e as desculpas para o aumento são sempre a falta do produto nas usinas e maior viabilidade econômica do açúcar. Há ainda a frota flex crescente.
A solução para o ciclo que torna o consumidor refém do sobe e desce de preço exige "pressão social" contra o governo, avalia Cícero Junqueira Franco, 79, usineiro e um dos ex-coordenadores do Proálcool nos anos 1970.
Para Franco, o Brasil precisa de uma política energética. Ele afirma que as investidas do governo Dilma Rousseff sobre o setor, reveladas na semana passada pela Folha, não vão dar resultado.

Crítico da gestão do ex-presidente Lula, Franco diz que o PT "está entregando o setor sucroalcooleiro para multinacionais". Uma das usinas comandadas por ele, a Vale do Rosário, se uniu à multinacional Louis Dreyfus. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida em Orlândia, interior do Estado de São Paulo.

Folha - Por que o senhor acha que os planos de restringir financiamento de bancos oficiais para produção de açúcar não vão funcionar?
Cícero Junqueira Franco -
Essa é uma medida de quem não conhece o funcionamento do setor e, na verdade, só está tentando apagar o fogo do momento. Vão reduzir um financiamento que praticamente é inexistente, são pouquíssimos casos.
Além disso, a produção de açúcar e de álcool usa a mesma matéria-prima e tecnologias na maior parte do processo industrial. Quem produz um produz o outro sem grandes dificuldades.
Quando, de fato, o senhor acha que o consumidor deixará de ser surpreendido pelas altas no preço do etanol?A volatilidade de preço é resultado da falta de uma política para estabelecer um estoque regulador. Isso tem de beneficiar a sociedade como um todo. O consumidor é também responsável e tem de entender isso.
Há diversas formas de pressionar o governo a criar uma política para dar equilíbrio permanente ao preço do álcool. Essa pressão pode ser feita através dos deputados, associações de classe e sociedade organizada como um todo. Não existe um movimento organizado nesse sentido, há só vozes dispersas.
O fato é que tem de haver uma mobilização, uma pressão social por um marco regulatório. E não basta só criar, será preciso monitorar essa política. Essa ação da sociedade vai criar uma reação.
A "reação" será etanol a preço baixo nas bombas?Não necessariamente baixo. O preço baixo pode beneficiar o consumidor, mas também prejudicá-lo. Se isso acontecer [preço baixo], não terá produção e, sem ela, vai faltar produto. O resultado será um prejuízo para o consumidor. Preço baixo não pode ser obsessão, temos de buscar o preço razoável.
Qual seria o preço razoável?Isso só será estabelecido pela relação com o custo da produção. O custo tem de ser equilibrado também. Hoje há um clamor muito grande sobre o custo Brasil, que envolve os fatores que reduzem a competitividade nacional, como impostos e transportes.
Temos de criar uma estrutura para baixar o custo e, consequentemente o preço, sem prejudicar o produtor.

Como o Estado vai poder interferir imediatamente?Política fiscal é uma possibilidade, mas desde que seja bem dosada e utilizada na hora certa. E não pode ser uma solução definitiva. Só que também não se aumenta a produção [de álcool], agora, de uma hora para outra. Para construir uma usina e formar um canavial, demora cinco ou seis anos.
E qual é a solução? Intervenção permanente do Estado?Não, o que falta é uma política estável e segura para o setor. O setor sucroalcooleiro sempre foi a menina dos olhos do PT. Antes de ser governo, era o partido que mais defendia o setor. Depois que assumiu, a política é outra. O PT está entregando o setor sucroalcooleiro para multinacionais. No começo do governo Lula, havia de 4% a 5% de multinacionais no setor. Hoje são mais de 35%.
Por que as empresas estrangeiras vão influenciar no preço do álcool na bomba?A multinacional está interessada no mercado lá fora e não no abastecimento interno. A empresa estrangeira quer ganhar dinheiro lá fora, com açúcar ou álcool.
E o que vai impedir o empresário brasileiro de vender para o exterior quando o preço for conveniente?É por isso que precisamos de um marco regulatório, que o governo tem de estabelecer para não prejudicar o consumidor nacional.

SENADOR DO PT REBATE AS CRÍTICAS

OUTRO LADO 
O senador petista Delcídio do Amaral disse que, ao contrário do que diz Cícero Junqueira Franco, o partido "sempre defendeu o empresário nacional". Para ele, não há como o governo proteger o usineiro brasileiro porque o etanol "já se tornou um business mundial que não vai mais ficar restrito ao Brasil".