Mostrando postagens com marcador Folhaonline 07/4/2011. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Folhaonline 07/4/2011. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Alta do etanol puxou preços da gasolina em março, diz IBGE

Etanol subiu 10,78% no mês passado e gasolina, 1,97% 

RIO - A alta dos preços do etanol, que foi de 10,78% em março, também puxou os preços da gasolina no mês passado: alta de 1,97%, contra 0,50% em fevereiro. O etanol é adicionado à gasolina vendida nas bombas dos postos de combustível. Com isso, a gasolina contribuiu com 0,08 ponto porcentual da inflação registrada pelo IPCA em março (0,79%), divulgado hoje pelo IBGE. Como tem peso menor no índice, o etanol teve uma contribuição menor: 0,04 ponto porcentual.
"Sempre que há alteração no preço do etanol há influência no preço da gasolina, que tem um peso grande no IPCA", observou Eulina Nunes, coordenadora da pesquisa do IBGE.
Segundo Eulina, no primeiro trimestre deste ano, a gasolina já acumula alta de 3,31% e o etanol, de 17,89%. A variação nos preços contrasta com o comportamento dos combustíveis nos três primeiros meses de 2010, quando a gasolina variou apenas 0,32% e o etanol, 4,50%.

Dilma intervém para conter alta no etanol

Presidente determina que controle da produção fique com ANP e quer redução da quantidade misturada à gasolina

Governo apresenta preocupação com efeitos sobre a inflação e pediu apoio do BNDES para aumentar oferta
A presidente Dilma Rousseff determinou uma série de ações para conter a alta de preços do etanol e evitar desabastecimento do produto.

Dentre elas, a transferência à ANP (Agência Nacional do Petróleo) do controle da cadeia produtiva do etanol, que receberá o mesmo tratamento do setor de petróleo.
Também decidiu reduzir a mistura do álcool na gasolina, mas não foi definida de quanto será a diminuição.

O pacote inclui mais recursos do governo, via Banco do Brasil e BNDES, para renovação do canavial, formação de estoques e, sobretudo, construção de novas usinas.
Segundo a Folha apurou, Dilma está preocupada com efeitos do preço da commodity sobre a inflação. Por isso, determinou ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que dê condições para que mais usinas operem.

Outra alternativa em estudo é a desoneração do etanol, em especial o ICMS. Essa medida, porém, precisa ser acertada com os Estados.

Hoje o ICMS é de 12% em São Paulo, maior centro consumidor do país, mas nos outros Estados a alíquota média é de 25%. Essa barreira tributária impediu o avanço da produção, segundo avaliação do governo federal.


CRÉDITO
O governo estuda também linhas de financiamento para a renovação da lavoura. A idade dos canaviais está maior do que o normal, o que reduz a sua produtividade.
Linhas de crédito para a formação de estoques também estão sendo pensadas, mas é preciso renovar o modelo que já foi apresentado.

Em 2009, o governo anunciou R$ 2,4 bilhões para financiamento, dos quais apenas R$ 33 milhões foram liberados. Os produtores não gostaram das condições de crédito apresentadas, com juros de mercado.

Dilma determinou ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, a flexibilização das exigências.

Sob a fiscalização da ANP, o etanol passará a ser acompanhado desde a produção até a distribuição. Atualmente, a agência reguladora só fiscaliza a qualidade do álcool combustível.

O Ministério da Agricultura acompanha os preços e o volume de produção, mas não há metas nem fiscalização nas usinas.

O diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, disse ontem à agência de notícias Reuters que essas medidas deverão sair no curto prazo.

Ele explicou que a ideia do governo é estender ao etanol o mesmo tratamento dado ao setor de petróleo, o qual a ANP acompanha desde a produção até a distribuição.
"Vamos aplicar no etanol o que fazemos nos campos de petróleo, onde se tem obrigações, fiscalização da produção e metas de desenvolvimento", disse Lima.

Serenidade e confiança são essenciais para o etanol agora

Nesta segunda-feira foi realizada reunião entre a presidente Dilma e quatro ministros para discutir medidas relacionadas ao setor do etanol, dentre elas a redução da mistura de anidro à gasolina -podendo até cair abaixo de 20%- e um maior controle da ANP Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) sobre a produção e a comercialização de álcool combustível.
Do ponto de vista técnico, não é possível reduzir a mistura abaixo de 20%. As frotas estão dimensionadas para usar gasolina contendo entre 20% e 25% de anidro.
Não existe nenhuma indicação de que os produtores não estejam comprometidos com a produção de anidro em volume suficiente. A redução da mistura só vai agravar a demanda adicional de gasolina pura, podendo gerar importação adicional desnecessária.
No curto prazo, há estoque de anidro suficiente que não está sendo escoado.
A safra que está iniciando traz a perspectiva de oferta crescente de etanol anidro e hidratado.
Tanto que, nas últimas duas semanas, o preço do etanol hidratado ao produtor caiu de R$ 1,66 para R$ 1,38 por litro, livre de impostos, redução ainda não sentida pelo consumidor.
O aumento do controle da ANP sobre a comercialização de etanol pode significar um avanço.
O etanol continua sendo comercializado no mercado à vista, com distribuidoras mantendo apenas um estoque mínimo operacional.
Caso as regras válidas para os derivados sejam estendidas ao etanol, poderá melhorar o planejamento desse mercado.
Na verdade, seria fundamental recuperar a competitividade do etanol com a gasolina em motores -que já foi de 81% em média em 1991, e hoje está em 70%- através de incentivos a inovações na industria automotiva, dando novo estímulo a expansão.
A expansão é, mais do que nunca, necessária, tendo em vista a demanda potencial representada pela crescente frota flex.
Essa medida introduziria elemento de incerteza, inibindo novos, necessários investimentos.
A flexibilidade industrial para fabricar açúcar ou etanol dependendo das condições do mercado é uma vantagem para os produtores e para o país, e não algo que deva ser combatido.
O fato de que a frota é flex, e pode se adaptar a essas condições, torna o Brasil um caso único e invejado mundo afora.
Os benefícios gerados pela produção e pelo uso em larga escala de etanol combustível são reconhecidos internacionalmente.
Os preços de açúcar e etanol observados recentemente foram resultado combinado de recorde de 30 anos no preço mundial do açúcar e de dois anos seguidos de clima anormal. O governo deve ter serenidade para transmitir a todos os agentes envolvidos na cadeia do etanol -consumidores, produtores, comercializadores e fornecedores de insumos- a tranquilidade necessária para que avanços continuem ocorrendo através de investimentos em expansão, modernização e ganhos de produtividade.
Afinal, a produção agrícola e industrial precisa crescer, até o final desta déca- da, dos atuais 620 milhões para mais de 1 bilhão de toneladas de cana, para atender à crescente demanda interna e externa.

PLINIO NASTARI é mestre e doutor em economia agrícola e presidente da Datagro Consultoria.