terça-feira, 13 de setembro de 2011

'Invasão' chinesa chega para o pré-sal

Pelo menos 20 fornecedores preparam sua entrada no Brasil para atender a demanda crescente do setor

Chegada está prevista para este ano; meta é abocanhar fatia de encomendas de US$ 400 bi até 2020

CIRILO JUNIOR

DE SÃO PAULO

De olho em encomendas que devem somar US$ 400 bilhões até 2020, empresas chinesas do setor de petróleo e gás preparam uma espécie de "invasão" ao Brasil.
Pelo menos 20 fornecedores da cadeia de bens e serviços de petróleo desembarcam ainda em 2011 no Brasil, em busca da forte demanda oriunda especialmente de projetos na camada pré-sal, liderados na maior parte pela Petrobras.
Depois de investir principalmente em telecomunicações e em equipamentos de construções rodoviárias, a nova leva de recursos chineses no Brasil será destinada à cadeia petrolífera, segundo o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang.
"O Brasil é um mercado importantíssimo, e as empresas chinesas querem investir", afirma.
Inicialmente, essas companhias chegam abrindo representações por aqui. A perspectiva, segundo Tang, é que muitas delas passem a produzir no Brasil.
"Os projetos têm cada vez maior índice de conteúdo nacional. Portanto, fabricar aqui no país vem se tornando um elemento importante", observa.

Vai se instalar aqui, por exemplo, a Honghua, fabricante de sondas que recentemente ganhou contrato para fornecer dois equipamentos de perfuração terrestre para a Queiroz Galvão Óleo e Gás.
Outra companhia que prepara a entrada no país é a CIMC Raffles, que já forneceu duas plataformas de perfuração para o grupo Schahin.

TEMOR
A indústria nacional não esconde o temor com a entrada de mais empresas chinesas. Para Bruno Musso, superintendente da Onip (Organização Nacional da Indústria do Petróleo), a maior parte das companhias que estão chegando está simplesmente abrindo escritórios e vendendo produtos importados.
"Temos a percepção de que eles estão chegando com mais força, mas sempre na linha exploratória. Inclusive trazendo trabalhadores chineses", afirma.
Musso diz não ser contrário à chegada de empresas de outros países, desde que venham agregar à produção nacional.

No ano passado, duas grandes petrolíferas chinesas desembarcaram no país.
A estatal Sinopec, maior companhia de petróleo do país asiático, adquiriu 40% do capital da Repsol Brasil.
Já a Sinochem obteve, por US$ 3 bilhões, 40% de participação no campo de Peregrino, na bacia de Campos (litoral do Rio).
A norueguesa Statoil é a outra sócia do bloco.
Maior compradora de produtos brasileiros, a China tem interesse em investir também em transporte marítimo, cujas atividades dão apoio à atividade petrolífera.
Perspectivas do segmento petroleiro e da entrada dos chineses serão discutidas no seminário Mare Forum, que será realizado hoje, no Rio de Janeiro.


Navios de etanol à vista

O Brasil importará 1,1 bilhão de litros de etanol anidro na safra 2011/12, informou à Reuters o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank. Segundo ele, o número já considera a redução na mistura de etanol na gasolina, de 25% para 20%, anunciada mês passado e que entrará em vigor em 1º de outubro. "É natural que essa importação aconteça, frente ao tamanho da quebra da safra, que será superior a 15%". Ele afirmou que a moagem de cana do Centro-Sul ficará abaixo da previsão atual de 510 milhões de toneladas da Unica.

Commodities Agrícolas

Teto em duas semanas As cotações do açúcar fecharam em alta em Nova York na segunda-feira, impulsionadas pelas novas estimativas da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) para a safra sucroalcooleira no Centro-Sul do Brasil, que vieram com ajustes considerados preocupantes para a oferta global do produto (ver página B14). Os contratos para março encerraram a sessão a 28,18 centavos de dólar por libra-peso, ganho de 54 pontos e maior patamar em quase duas semanas. Como a safra do Hemisfério Norte começa neste mês, traders ouvidos pela Dow Jones Newswires acreditam que o espaço para novas valorizações vai diminuir. No mercado doméstico, o indicador Cepea/Esalq para a saca de 50 quilos do açúcar cristal negociada em São Paulo caiu 0,53%, para R$ 66.

Safra menor de cana reduz faturamento das usinas

 

Os bons preços de açúcar e etanol, mais elevados nesta temporada 2011/12 do que na passada, não deverão compensar a forte perda de produção que as indústrias sucroalcooleiras da região Centro-Sul do país terão no ciclo atual. O mercado estima quebra na colheita de cana da ordem de 20% e aumento acentuado de custos, que já não estavam baixos. O fato é que a atual safra, que prometia faturamento alto às usinas e redução significativa de alavancagens, deverá redundar em ganho mais modesto para o caixa do segmento.
A estimativa da consultoria de gestão de riscos Archer Consulting é de que as empresas do ramo deixem de faturar na temporada atual em torno de R$ 10 bilhões com a venda de açúcar e etanol no Centro-Sul. A cifra representa cerca de 14% do faturamento bruto inicialmente esperado pela consultoria para a região (R$ 80 bilhões). A Archer considera em seus cálculos custos portuários e com frete.
Ainda assim, a receita vai crescer na região, que representa 90% da cana processada no país. A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) prevê que o faturamento líquido das usinas - livre de impostos, fretes e quaisquer outros custos logísticos - será de R$ 55,7 bilhões no atual ciclo, 7,5% maior do que os R$ 51,8 bilhões registrados na temporada 2010/11. "Não sabemos exatamente de quanto seria esse faturamento se a safra não tivesse quebrado. Afinal de contas, os preços seriam diferentes", diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da Unica.
A estimativa feita pela Archer Consulting é de que as usinas deixarão de produzir - e vender - 4,9 milhões de toneladas de açúcar, 14% da produção prevista inicialmente (34,96 milhões de toneladas). Os cálculos consideram também que deixarão de ser produzidos 3,3 bilhões de litros de etanol, na comparação com a previsão inicial para a temporada. A moagem de cana, segundo a consultoria, será de 485 milhões de toneladas, 14,15% menor do que as 565 milhões previstas inicialmente.
Até agora, a Unica constatou em seu levantamento quinzenal processamento de cana 11,05% menor até 1º de setembro. A queda na produção de açúcar está em 9,40% e na de etanol, em 18%.
A receita aquém da esperada virá mesmo com preços elevados, reitera Arnaldo Luiz Correa, da Archer. O litro do hidratado, por exemplo, está valendo 43% mais do que em igual período de 2010, segundo o Cepea/Esalq. As cotações do açúcar na bolsa de Nova York estão 27% mais elevadas.
Paralelamente, fontes do mercado estimam que os custos de produção subiram agressivamente diante dessa quebra de safra e que já se aproximam de níveis 25% mais altos do que no ciclo anterior. "Se consideramos o custo financeiro, o hidratado dá prejuízo à usina", afirma Correa.
o diretor da Unica explica que é difícil generalizar os números de custo de produção, mas reconhece que eles subiram e vão se traduzir em pouco resultado às empresas do setor. Ele avalia que, se a quebra na safra ficar entre 17% e 18%, o aumento do custo vai neutralizar o efeito dos preços mais elevados.
Corrêa acrescenta ainda três fatores que devem influenciar a rentabilidade do setor neste ciclo. O primeiro é o já conhecido limite de alta dos preços do etanol hidratado, que independentemente do tamanho da produção de cana, esbarra nos preços da gasolina. Ainda há o caso do anidro, que teve sua mistura à gasolina reduzida pelo governo, o que também deve conter a valorização dos preços.
O terceiro fator virá da renegociação de contratos de açúcar para entrega futura, o que promete trazer deságios significativos nos valores a serem recebidos pelas usinas. "Se a indústria tem contrato para entregar o açúcar em outubro a 29 centavos de dólar por libra-peso, mas não terá produto, terá de renegociar, por exemplo, para outubro de 2012 a um valor futuro, que está menor", observa Correa.
Existem, ainda, casos de usinas que receberam recursos antecipados, renegociação que virá acompanhada de cobrança de juros, afirma Correa. "Não há dúvida de que problemas virão".
Além de ser marcada por um faturamento mais modesto, a safra 2011/12 também terá um término precoce. A previsão da Unica é que a partir de outubro já haverá usinas desligando os motores, quando o normal é encerrar a moagem no começo de dezembro. "A maior parte deve encerrar a moagem na primeira quinzena de novembro", afirma Pádua.
No caso dos fornecedores de cana, muitos já acabaram a colheita, segundo a Organização dos Plantadores de Cana-de-açúcar do Centro-Sul (Orplana). "A safra dos fornecedores pode quebrar mais de 20%. No ciclo 2010/11, a produção foi de 125 milhões de toneladas. Nesta temporada, deve ser menos de 100 milhões de toneladas", diz Ismael Perina, presidente da Orplana.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Crise será prolongada, diz Tombini

O corte de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, na reunião do Copom do dia 31, teve um claro objetivo: "neutralizar a desaceleração da atividade econômica decorrente da piora no quadro internacional". O Comitê de Política Monetária calculou que se o rebaixamento geral do crescimento nas economias centrais representar para a economia brasileira 25% dos efeitos da crise de 2008/2009, isso resultaria numa perda de 1,25 ponto percentual no PIB, disse o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ao Valor.

O desaquecimento adicional, decorrente esperada redução nos próximos meses da corrente de comércio, dos investimentos externos e do crédito, viria se sobrepor à desaceleração em curso e que será sentida com maior intensidade no segundo semestre. A inflação, que entre agosto e setembro bateu no teto da meta, começa a ceder a partir de outubro. Ele explicou que no cenário alternativo (que consta da ata do Copom), mesmo com os juros em queda e o câmbio depreciando como nos últimos dias, a projeção de inflação é mais baixa do que seria se os juros tivessem sido mantidos em 12,50%. "Não estamos apostando em catástrofe. Apostamos numa desaceleração do crescimento mundial e numa crise mais prolongada do que em 2008."

Na entrevista ao Valor, o presidente do BC tinha em mãos tabela com as projeções de inflação e juros em mais de vinte países. Em todos, os juros reais estão negativos ou muito baixos, o que retrata a pouca ou nenhuma capacidade de reação das políticas monetárias para reanimar o nível de atividade. No Brasil, a situação é diferente: os juros são de 12% para uma inflação que está no pico de 7,23%, mas que deve cair para a casa dos 5% até abril ou maio de 2012. "Faz quem pode."

Apesar das muitas críticas e poucos aplausos à decisão do Copom, Tombini não demonstrou qualquer dúvida. "Para aqueles que ainda não entenderam, vai haver um entendimento da nossa estratégia. Estamos num processo de moderação do crescimento, que já estava encomendado. Adiciona-se a isso uma deterioração do cenário internacional de forma importante nos últimos 40 dias. Isso nos leva a uma trajetória de inflação de queda em busca da meta". Garantiu que não houve abandono da meta de inflação de 4,5% em 2012, que o BC não tem mais de um objetivo e que não há interferência política. "Com a presidenta Dilma Rousseff discutimos cenários".

Tombini conta com estabilidade, e não queda, nos preços das commodities; com desaquecimento do mercado de trabalho e não desemprego; e com uma moderação no setor de serviços, que carrega uma inflação na casa dos 9%.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Empresas investem em cana-de-açúcar transgênica


Planta pode significar uma alternativa aos recorrentes problemas de quebra de safra, que prejudicam o mercado de revenda de combustíveis, dizem desenvolvedores

Gigantes do setor agrícola estão investindo centenas de milhões de dólares na corrida para o lançamento, no Brasil, da primeira cana-de-açúcar transgênica do mundo em escala comercial.
Desenvolvedores prometem uma revolução, com variedades mais resistentes a pragas, à seca, com maior teor de açúcar e facilidades para produção de etanol. Segundo eles, isso pode significar uma alternativa aos recorrentes problemas de quebra de safra, que prejudicam o mercado de revenda de combustíveis. 
Por causa das perdas na colheita, a partir de outubro o 
governo vai reduzir o porcentual de álcool misturado na gasolina de 25% para 20%. A Petrobras, que deve importar mais de 3 milhões de litros de gasolina para suprir a demanda interna superaquecida, também entrou no páreo para a cana transgênica.
A demanda crescente fez o novo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, determinar ao presidente da Embrapa, Pedro Arraes, que avance nas pesquisas para evitar uma redução maior da oferta de etanol no futuro. O governo também quer minimizar o quase monopólio das pesquisas por multinacionais como Monsanto e Syngenta, como na soja. 
A ideia é que a Embrapa, como empresa pública, seja o fiel da balança de um mercado com presença crescente de multinacionais – diz o pesquisador da Embrapa, Hugo Molinari, que lançou recentemente a primeira variedade brasileira de cana transgênica, agora em análise.

Dianteira
Mas, na corrida, as multinacionais largaram na frente. A suíça Syngenta aplicou, desde o ano passado, US$ 100 milhões (75% já gastos) no desenvolvimento de quatro plantas de cana transgênica para o mercado brasileiro. As mudas estão prontas em laboratórios nos Estados Unidos, mas precisam vencer um processo burocrático para serem aprovadas no Brasil. 
Os investimentos da Monsanto não ficam abaixo desse patamar. Custos com aplicação podem mais que dobrar as cifras. Já a Embrapa reparte, entre cinco culturas (cana, soja, milho, algodão e eucalipto), um minguado orçamento de R$ 4 milhões em pesquisa ao longo de três anos.
Atualmente, estão autorizadas no Brasil as culturas transgênicas de soja, milho e algodão. No próximo dia 15, o primeiro feijão transgênico deve ser aprovado pelo Comitê Técnico Nacional de Biossegurança (CTNBio).
– A cana ficou largada por muitos anos e agora finalmente está recebendo a atenção que precisa – diz o responsável pela área de cana-de-açúcar da Syngenta, Daniel Bachner.
As expectativas são de que as primeiras variedades entrem no mercado em quatro anos. A Petrobras trabalha com esse horizonte, a Syngenta garante que a revolução no mercado não passa de cinco anos. Já a Embrapa prevê de sete a oito anos.
Além da tolerância à seca e resistência a pragas e doenças, a Petrobras Biocombustível foca suas pesquisas na cana para etanol de segunda geração
. 
A meta é estabelecer ganhos de produtividade numa perspectiva integrada ao conceito de biorrefinaria – disse a estatal, em nota.

Erro na escolha do tipo de cana aumenta custos

Na euforia, investidores plantaram variedades inadequadas para certas regiões do País


Na corrida pela expansão da cana-de-açúcar, muitos investidores não se preocuparam com as diferenças climáticas e de solo das novas fronteiras agrícolas. Sem alternativa de mudas, eles usaram a mesma variedade de cana plantada na região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Agora descobriram que essas mudas não são tão resistentes a pragas e adequadas para o novo ambiente.

Equívoco. Mudas do interior de São Paulo não se adaptaram a outras regiões do País
Além da quebra de safra frequente, a cana não tem o mesmo teor de açúcar verificado nos tradicionais canaviais de São Paulo. "As empresas terão de buscar um novo processo de desenvolvimento de variedades voltadas para as condições de cada região", afirma o diretor técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues. Mesmo nas novas fronteiras de São Paulo, as variedades se mostraram aquém do esperado.
Segundo especialistas, esse problema tem sido um dos fatores de pressão para o aumento dos custos de produção da cana. "Houve uma euforia muito grande em relação ao potencial do etanol e da energia elétrica (produzida com o bagaço). Todos queriam entrar no setor", afirma o presidente da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-sul do Brasil (Orplana), Ismael Perina.
Ele explica que, antes da crise de 2008, havia muito dinheiro no mercado para desenvolver novos projetos. Isso acelerou a expansão. "Mas fizeram muita loucura. Pegaram qualquer terra sem ver se era boa ou ruim. Agora tem os acertos de conta para fazer." Além disso, destaca Perina, as novas áreas, especialmente do Centro-Oeste, têm problemas ligados a logística. Ou seja, os custos são maiores.
Fertilizantes. Com mudas inadequadas ao novo ambiente, essas empresas ajudaram a puxar para cima outro item que compõe o custo de produção da cana-de-açúcar: os fertilizantes. "Como eles compram mais, o preço sobe e aí todo o setor é afetado", destaca o presidente da Orplana. Mas, segundo os representantes do setor, as companhias já estão estudando variedades para essas novas fronteiras.
Para completar o quadro negativo, as condições climáticas não têm contribuído para a redução dos custos. Com a quebra de safra deste ano, a tendência é que os custos aumentem ainda mais. O custo do açúcar, por exemplo, deve subir 20% este ano. 

Etanol - incertezas e indefinições

Há poucos anos o Brasil, eufórico, oferecia ao mundo o combustível verde de cana-de-açúcar, cujas vantagens ambientais e econômicas sobre os "similares" são tamanhas que nem as barreiras ao comércio poderiam nos afastar do destino de vir a ser a Arábia Saudita do biocombustível. Hoje o clima é outro: desde 2008 o setor entrou numa conjuntura de incertezas e indefinições que ao menos nos faz pensar se seremos capazes de levar adiante tal projeto.
Os consumidores se sentem enganados com o aumento do preço do etanol e as ameaças ao abastecimento; especialistas indicam, com ironia, que o País batalhou para criar o mercado internacional de álcool combustível de olho no potencial exportador, mas hoje é o maior importador de etanol de milho americano, produzido com base nos subsídios contra os quais temos lutado. Oscilações de preços e importações estabilizadoras são movimentos normais em mercados abertos, mais ainda no caso de um produto cuja produção depende de condições ambientais. O anormal é achar que os problemas se corrigirão por si sós, pela ação do mercado.
O mercado de energia, por ser estratégico, é fortemente condicionado pela política, pelos marcos regulatórios e instituições que formam as regras do jogo e definem investimentos cuja viabilidade depende da convergência de ações de múltiplos agentes. Embora o carro bicombustível tenha aumentado a flexibilidade do consumidor, isso não significa adesão perpétua nem disposição a pagar mais pelo veículo para o consumo apenas eventual do etanol. E em mercados complexos uma simples mudança de percepção do consumidor pode ser o detonador de um efeito dominó de grandes proporções.
As causas da situação atual são claras: redução do crescimento após 2008, de 10% ao ano, de 2000 a 2008, para menos de 3%, em 2009-2010; retração de investimentos em expansão de capacidade produtiva; elevação de custos de produção da cana-de-açúcar; problemas climáticos nas últimas duas safras; e queda de produtividade decorrente da perda de eficiência produtiva associada ao crescimento acelerado do período anterior e à contenção de custos que sacrifica adubação, renovação de canaviais, etc. O comportamento errático do governo em relação ao setor, marcado por algumas intervenções equivocadas e outras tardias, indica incompreensão da importância do setor, cujo crescimento sustentável não pode ser improvisado, mas pode ser facilmente comprometido por medidas casuísticas determinadas por motivações de curto prazo descoladas de uma visão estratégica.
A viabilidade do etanol depende da remuneração e atração dos investimentos na produção de cana-de-açúcar e na indústria, necessários para atender à crescente demanda mundial de açúcar, etanol e energia e para consolidar a bioenergia como um dos principais eixos de desenvolvimento do País. Em todo o mundo, os investimentos que constroem o futuro desejado são favorecidos com incentivos institucionais, incluindo reduções de impostos. O Brasil continua na contramão. Enquanto nos EUA e na União Europeia o etanol é subsidiado, aqui os impostos correspondem em média a 31% do preço do etanol na bomba e 42% da gasolina. A pequena diferença não reflete as reconhecidas externalidades ambientais, sociais e de saúde pública que o próprio governo usou em sua cruzada a favor do etanol. A diferenciação tributária poderia ser adotada de imediato, e contribuiria para melhorar a competitividade do setor.
Para dar segurança ao produtor de etanol, é preciso definir e manter regras claras, transparentes e estáveis para a formação do preço da gasolina, para a estrutura de impostos sobre os combustíveis e para o conjunto de regras que pautam o funcionamento do setor. É imperativo criar condições reais para a inovação tecnológica, sem a qual será impossível assegurar a viabilidade do biocombustível. Basta um exemplo: o orçamento da Embrapa bioenergia é inferior a 1/10 dos recursos aplicados pela Monsanto ou Syngenta apenas na pesquisa em cana-de-açúcar.
PROFESSORES DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UNICAMP (BUAINAIN@ECO.UNICAMP.BR / JMSILV@ECO.UNICAMP.BR)

Sobrevivência da indústria divide economistas


Samuel Pessôa: “A inflação é excesso de demanda, tem um pouquinho de commodities e tal, mas o grosso é serviços”
"Não consigo enxergar a indústria sobrevivendo no Brasil."
"Abrir mão da indústria é quase que jogar fora a nossa história."
Dois economistas de peso, um neoclássico e um keynesiano, convidados para debater a posição do Brasil ante a crise mundial produziram as duas frases acima.
Samuel Pessôa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da consultoria Tendências, autor da polêmica primeira frase, avalia que a opção da sociedade brasileira pela busca da equidade se opõe à alternativa de crescer com mais velocidade, na medida que pressupõe abrir mão do aumento da poupança. Com baixa poupança, não há como a indústria do país competir com os chineses e asiáticos em geral, que poupam muito e têm mão de obra mais barata do que a nossa. O quadro se agrava com a maior produtividade das commodities atraindo torrentes de dólares e fazendo do real sobrevalorizado um inimigo mortal da indústria.
O desenvolvimentista Luiz Carlos Prado, do reduto keynesiano da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autor da segunda frase, concorda com Pessoa que em uma democracia a sociedade escolhe as opções, mas entende que o Estado "não é passivo nesse processo" e "se articula com a sociedade no sentido de ir levantando escolhas". Entre essas escolhas, "a sobrevivência da indústria é uma questão fundamental". Prado utiliza o exemplo chinês de terceirizar para os vizinhos asiáticos a produção de bens industriais mais intensivos em mão de obra para propor que o Brasil faça o mesmo na América do Sul com países como Paraguai e Bolívia, liderando uma efetiva integração comercial.
Quando o debate chegou à inflação, mais discordância. Prado, fiel ao pensamento keynesiano, entende que o Brasil precisa distribuir renda para criar demanda e que a alta dos preços tem origem inercial. Para Pessoa, o que existe é carência de oferta de bens.
"A China está optando por um crescimento com mais desigualdade, é muito difícil crescer rápido com igualdade"
A discussão, anterior ao corte de 0,5% na taxa de juros pelo Banco Central (BC), durou mais de duas horas e meia. A seguir, os principais trechos do debate.
Valor: Considerando a hipótese de estagnação do mundo desenvolvido, o Brasil conseguiria, voltando-se ao mercado doméstico, como a China, manter um certo padrão de crescimento razoável?
Samuel Pessôa: Eu acho que o Brasil tem capacidade de crescer. A China continua a trajetória dela, com essa transição para o mercado de consumo interno que eles vão ter que fazer. A minha leitura é que isso significa que commodity agrícola continuará em alta e commodity mineral talvez não suba tanto.
Valor: Isso no médio prazo?
Pessôa: Cinco anos. Porque o investimento vai cair um pouquinho, mas principalmente porque em commodity mineral a resposta da oferta é maior. Nos próximos três anos, a produção de minério de ferro no Brasil vai dobrar. E não vai ser só o Brasil que vai crescer, então o preço vai cair. Mas eu acho que a gente vai continuar exportando muito minério de ferro, muita soja, muita commodity. Esse viés da economia brasileira na direção de ser um grande produtor de commodities, e uma certa regressão da indústria, acho que é estrutural, não vai mudar. Eu acho que vai cair o crescimento potencial nosso, porque uma parte dele é redução da taxa de desemprego. Provavelmente, o que o país pode crescer está mais para 3,5% do PIB ao ano do que para 4%.
Leo Pinheiro/Valor/Leo Pinheiro/ValorLuiz Carlos Prado: “Não há dúvida que a crise internacional vai reduzir o crescimento, pois o Brasil faz parte do mundo”
Luiz Carlos Prado: Equacionada a questão inflacionária, com o Plano Real, a questão de crescimento volta a entrar em pauta, ou seja, daqui por diante, qualquer que seja o partido que estiver no poder vai ter que manter uma taxa de crescimento razoável. O que mudou, e isso é um pouco curioso, foi a questão externa. No passado, o Brasil não tinha como reduzir o tamanho relativo da sua indústria. Ou seja, para sustentar uma taxa de crescimento, tinha que aumentar o tamanho da indústria porque tinha que atender uma demanda doméstica nesse setor crescente, e se você aumentasse via importação, rapidamente caminhava para uma crise cambial. Como a gente ganhou espaço na área externa, de certa maneira é possível sustentar uma taxa de crescimento um pouco mais elevada com algum grau de desarticulação da indústria. E aí é onde entra o principal debate da sociedade brasileira. Que tipo de composição de produção doméstica nós queremos?
Pessôa: Eu tenho uma discordância básica: eu acho que a agenda ainda não é de crescimento, se sim de igualdade, de equidade. Vai crescer o que der para crescer depois de atingir os objetivos prioritários de equidade.
Valor: O sr. não acha que esse aumento da igualdade tem levado ao crescimento?
Pessôa: Acho que não. Tem um "trade-off" entre crescer mais e ficar mais desigual e crescer menos com igualdade. Acho que a China está optando por um crescimento com mais desigualdade. Acho muito difícil crescer rápido com igualdade. Acho que em mais dez, oito anos a agenda vai passar a ser uma agenda de crescer. Porque a gente tem esse fenômeno fantástico, maravilhoso, das classes C e D, que estão entrando na sociedade de mercado. E acho que essa classe social, a médio prazo, vai ser conservadora, vai querer menos Estado e mais crescimento econômico.
Prado: Eu só discordo em um ponto. É interessante, você pega a literatura desde a década de 60, os clássicos, Celso Furtado... um dos grandes pontos que se colocava era que a dificuldade de crescimento do Brasil era pelo lado da demanda e isso tinha a ver com a má distribuição de renda. Sem dívida nenhuma, quando você melhora a distribuição de renda você melhora a demanda. O que ele (Pessôa) está dizendo é o seguinte: tudo bem, melhora a demanda, mas eu não tenho poupança, então eu não tenho oferta para atender e respondo a isso via importação.
"Nós temos de pagar o preço que for necessário para termos uma sociedade mais igual"
Pessôa: Exatamente. Se o mundo quiser me financiar.
Prado: E esse talvez seja o ponto, tem a ver com mecanismos de expansão dos investimentos, que é a essência do debate sobre o crescimento no Brasil. Concordamos que precisamos aumentar o investimento. O que gera o aumento do investimento, de onde ele vai vir, quem vai financiar e como, essa é a natureza da discussão. Eu suspeito que hoje, talvez você pudesse ter uma taxa de crescimento um pouco mais alta se você tivesse um câmbio um pouco diferente.
Valor: A apreciação do real é sinal de fraqueza da moeda brasileira, incapaz de defender a competitividade da produção doméstica?
Pessôa: Acho que não dá para ter tudo na vida. Eu não consigo enxergar a indústria sobrevivendo no Brasil. Eu acho que é quase impossível a sobrevivência da indústria nos moldes que ela tem no Brasil. Vou dar um exemplo: pegue a indústria automobilística. A indústria automobilística está no Brasil há quase 60 anos. Ela existe na Coreia do Sul há 30 anos. É metade do tempo. Por que é que nossa indústria é uma porcaria perto da indústria coreana? Não é que seja ruim, é uma porcaria! Eu acabei de comprar um carro coreano. É uma coisa impressionante o desnível.
Valor: Será que é porque a indústria coreana é produto de pesquisa doméstica?
Pessôa: Não, eu acho que é porque na Coreia se estuda muito e no Brasil não se estuda. O coreano médio, se fizer a prova do Pisa [medição internacional da capacidade do jovem de 15 anos de usar seus conhecimentos para enfrentar a vida], ele está no topo. A média brasileira é uma tragédia. O capital humano no Brasil é muito ruim. O custo de capital na Coreia é muito mais baixo que aqui, porque eles poupam 36% do PIB e a gente poupa 18%, 17%. Eu não vejo como a gente vai sustentar essa indústria. Só se fechar a economia.
Valor: Como o sr. liga isso com o câmbio?
Pessôa: Vamos voltar para a questão da indústria, vamos pegar a indústria calçadista. Você tem lá o cara em Franca, no interior de São Paulo, que está produzindo calçados. O empresário de Franca acha que compete com o produtor de sapatos da China, mas ele está errado. Ele compete com o produtor de soja de Rondônia. Porque se nós não produzíssemos soja e nem minério, o câmbio seria R$ 5. O que estou dizendo é que dada a produtividade que temos para produzir commodities e a produtividade que temos para produzir sapatos, o câmbio que reflete a nossa vantagem comparativa em commodities mata o produtor de sapatos. Então, o único jeito que eu tenho para fazer sobreviver o produtor de calçado é fazer alguma coisa que imponha um custo grande à produção de commodities.
Valor: O sr. então acha que essa reprimarização não vai mudar?
Pessôa: Acho que é um fato permanente e a gente deveria ser meio que passivo em relação a isso.
Prado: Eu concordo que a educação no Brasil foi historicamente subfinanciada. Mas eu sou muito mais otimista quanto ao potencial de crescimento brasileiro e eu acho que o Brasil não pode abrir mão da indústria. Isso é quase que jogar fora nossa história, todo esforço que se fez para transformar a sociedade brasileira. E, mais do que isso, commodities, a longo prazo, não se sabe para onde irão as coisas. Você não tem como voltar atrás se alguma coisa der errada. Aí eu coloco uma outra questão: a China tem uma outra diferença com o Brasil, tem superávit em relação ao resto do mundo, mas tem déficit com seus vizinhos. Ou seja, ela é integrada na região. O Brasil tem uma posição diversa: déficit em relação ao resto do mundo e superávit com referência aos seus vizinhos, o que dificulta o processo de integração regional. Até que ponto seria viável o Brasil partir não apenas para uma política industrial olhando para seu próprio umbigo, mas tentando integrar os próprios vizinhos? Se nós não conseguimos fazer alguns produtos ao preço necessário, por que não o Paraguai ou a Bolívia? Agora, seja lá o cenário que for, câmbio é uma variável fundamental. A história mostra que toda vez que você tem um câmbio excessivamente valorizado, isso gera problemas de industrialização. Não necessariamente você tem que fazer uma taxa de câmbio para sustentar qualquer tipo de indústria, mas certamente você tem que ter uma política um pouco mais ativa dentro desse setor para que essa taxa de câmbio seja compatível com a estratégia de manutenção de setores da indústria que você julga necessário.
Valor: O sr. acha que o programa Brasil Maior preenche de alguma forma essas necessidades?
Prado: Acho que é um começo, acho que está muito aquém do que é necessário. Que você tem que fazer alguma coisa nessa linha, não há dúvida, sou favorável a fazer mais. Ser mais ativo no que se refere a câmbio e ser também ativo no que se refere a estratégias de política industrial. O que eu acho é que nós temos que pagar o preço que for necessário, não podemos abrir mão de ter uma sociedade mais igual.
Valor: O sr. concorda que, para manter a indústria, as commodities têm que pagar um pouco desse preço?
Prado: Isso nós fizemos no passado com o café. Teve o famoso confisco cambial, que cumpriu esse papel. Eu não estou ainda convencido que você tem que fazer alguma coisa similar àquilo. O que eu estou convencido é que você tem que ter uma política que compatibilize as duas coisas. Eu compartilho, em parte, a visão do Samuel de que você vai ter dificuldade pelo lado do investimento. Você vai ter que levar investimento, portanto, vai ter que ampliar a linha de crédito. O desafio é como ampliar esse "funding" - e aí tem um pouco de discordância teórica sobre se é possível fazer um "funding" sem que você tenha previamente poupança...
Pessôa: Acho que essa não é uma discordância, não...
Prado: Não é uma discordância? Então tudo bem. Acho que você vai ter que ampliar o "funding" e existe um ponto do qual todo mundo compartilha: daqui por diante, os gastos de não investimento do Estado têm que crescer a uma taxa menor do que o crescimento do PIB, até porque não dá para crescer muito...
Valor: Estamos sentindo uma convergência...
Prado: Só que não estou dizendo que você tem que reduzir gasto social, pelo contrário, acho que isso é um ganho da sociedade brasileira. O que estou dizendo é que nós temos que aumentar a taxa de investimento pública e o "funding", que são os dois elementos para investimento. Disso nós não escapamos. O problema é como fazer, onde fazer.
Pessôa: Acho que crescimento não é uma coisa que eu, como economista, emita opinião. Acho que quem se pronuncia sobre crescimento é a sociedade. Agora, sempre que quero crescer mais, custa mais. Crescimento custa, crescimento dói. Ele exige envolvimento da sociedade e, muitas vezes, a sociedade não está disposta.
Valor: O sr. concorda?
Prado: É claro que você tem que fazer escolhas. Concordamos. Aliás, tenho que fazer escolhas para crescer e para não crescer. O problema é que se você não cresce, as escolhas são ainda mais duras do que quando você cresce. É claro também que você não pode crescer aquilo que gostaria. Não posso crescer 10%, se não tenho determinados elementos para isso. O que eu acho é que nós temos muitos ganhos de eficiência a fazer no Brasil, desde gestão pública até vários mecanismos de ampliação de linhas e crédito. Acho que temos espaço para crescer. As taxas de poupança no Brasil já foram mais altas no passado e não há nenhuma razão para dizer que a sociedade brasileira se alterou nesse sentido.
Pessôa: Quando a gente discute essa questão da poupança, tem a questão teórica que não tem jeito de não enfrentar, sempre vem. Tem aquele discurso que diz que tenho primeiro que ter a poupança, para depois ter o investimento. Isso é uma proposição dos anos 30, uma coisa superada. A gente sabe que a causalidade é do investimento para a poupança. Você investe e a poupança vem. Agora, acho que tem um ponto, e talvez aí haja uma discordância entre nós, acho que a institucionalidade vigente no Brasil faz com que, pelo menos nos últimos anos assim tem funcionado, a causalidade é inversa, o crescimento vem e junto com ele vem o investimento, reforçando ainda mais o crescimento, e a poupança não vem atrás. Ou quando ela vem, é de forma muito tímida, gerando um buraco que a gente tem que tapar com a poupança externa. O que eu acho? Como a agenda é de equidade e não de crescimento, sempre que o crescimento vem e o investimento vem, as demandas sociais vêm atrás. E essas demandas sociais impedem que esse mecanismo, que permitiria uma aceleração sustentada da nossa taxa de crescimento opere. Quando tenho que abrir mão do meu consumo adicional, que é produzido pela possibilidade do crescimento, não abro mão desse consumo e aí a poupança não vem atrás. E aí eu sou bem mais pessimista nisso. Quando a gente olha o Estado brasileiro, tenho uma avaliação que não há desperdício no Estado brasileiro. Se nós olharmos tudo que cresceu de gasto público como proporção do PIB nos últimos 12 anos, o gasto federal aumentou pouco mais de quatro pontos de porcentagem do PIB. Isso é muita coisa, porque o PIB cresceu. Agora, mais de 80% desse aumento de gasto é programa social, INSS, política de valorização do salário mínimo, investimento, custeio de saúde e educação. Não é custeio da máquina. O custeio da máquina caiu como proporção do PIB nesse período.

Laboratório móvel

Laboratório móvel

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), controlado por Copersucar e Raízen informou que apresentou oficialmente na sexta-feira "o único laboratório móvel do Brasil destinado a análises técnicas e científicas da produção de cana-de-açúcar, açúcar e etanol". O laboratório, que tem 14 metros de comprimento, foi criado pelo CTC, que tem sede em Piracicaba (SP), em parceria com a Finep, e poderá atender as empresas do segmento de todo o país. O investimento no projeto foi da ordem de R$ 1 milhão.