sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sem IPO, Copersucar mantém o plano 'B'


Estratégia: Maior trading de açúcar e etanol do país retoma o desafio de crescer com controle de sua dívida

"O plano continua. Mas não conseguiremos acelerá-lo e nem aproveitar novas oportunidades que já estávamos antevendo", diz Souza (dir.), ao lado de Pogetti
Frustrada a operação para captar pelo menos US$ 1 bilhão no mercado de capitais para financiar seu crescimento, a Copersucar, maior comercializadora de açúcar e álcool do país, mantém, resignada, seu plano "B" de investir com dívida e capital próprio. O programa vai demandar R$ 2 bilhões para projetos de infraestrutura e logística até 2015. Para os próximos 12 meses, o orçamento contempla investir R$ 300 milhões.
Entre os projetos está a construção de um etanolduto por meio da Logum, empresa da qual a Copersucar é sócia, a conclusão da primeira fase de expansão do terminal de açúcar do porto de Santos (SP), de 5 milhões para 8 milhões de toneladas, e a construção de um terminal de tancagem em Paulínia (SP) com capacidade para armazenar 400 milhões de litros de etanol, que será um ponto de recebimento e distribuição para os mercados interno e externo.
Em torno de 70% dos R$ 300 milhões serão financiados com linhas de longo prazo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o restante, com dinheiro próprio. "Os planos continuam sem o IPO, mas com ele, poderíamos acelerar os já existentes e aproveitar outras oportunidades em logística para as quais já estamos com o radar ligado", lamenta Paulo Roberto de Souza, CEO da Copersucar.
Aumentar o endividamento também não é algo apreciado internamente na empresa. Atualmente, a relação entre dívida líquida (R$ 961 milhões) e Ebitda - lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (R$ 407 milhões) está em 2,36 vezes, em linha com que os grandes grupos do setor sucroalcooleiro vinham registrando antes de fazerem parcerias estratégicas.
Diante de um Ebitda que dobrará no próximo ano para R$ 800 milhões, prevê a empresa, essa relação com a dívida líquida vai subir para cerca de 2,7 vezes com o acréscimo de dívida de R$ 300 milhões, segundo Souza.
Ainda que em níveis técnicos aceitáveis, elevar endividamento não é algo desejado pelos acionistas da Copersucar, que são conservadores em sua política de riscos. Por isso, o mercado acredita que até 2015 a empresa deve buscar alternativa para financiar esse investimento total de R$ 2 bilhões.
Apesar da desistência do IPO, motivada pela conjuntura negativa do mercado, abrir capital não saiu do radar da companhia, diz Luís Roberto Pogetti, presidente do conselho de administração da Copersucar. Foram quatro meses de trabalhos e gastos de R$ 3 milhões com auditorias e advogados para explicar a mais de 200 investidores que aplicam recursos no agronegócio mundial um modelo de negócio incomum. A Copersucar é uma trading que tem como sócios seus fornecedores, ou seja, as usinas de açúcar e etanol.
Essas unidades são regidas por um contrato de duração de 10 anos que, a partir do quinto ano, é renovado automaticamente por mais cinco anos. Há uma cláusula que prevê o aviso antecipado de cinco anos para sua rescisão. Assim, a partir do sexto ano ele terá vigência até o 11º ano, e assim sucessivamente, caso não haja o pré-aviso. Em caso de descumprimento, há multa de 3% sobre a receita bruta, penalidade que tem que ser paga por ano durante todo o período em que vigoraria o contrato.
Nesse acordo, as usinas fornecem 100% da produção de açúcar e etanol. Para definir o preço, o volume total produzido é dividido por 12, para distribuí-lo ao longo do ano, e é aplicada mês a mês a cotação média Esalq. "Não negociamos preço com os sócios. Ele já é pré-definido", detalha Pogetti.
Mas as sócias não se mantêm presas pelo contrato, diz Souza. Há, na avaliação dele, vantagens que minimizam rotatividade de sócias. Além de dispensar investimentos e infraestrutura próprias de comercialização e logística, as sócias recebem ao fim da safra os dividendos resultantes dos ganhos de comercialização e logística.
Desde 2009, seu primeiro ano como S.A., a Copersucar distribui anualmente às usinas sócias dividendos equivalentes a um valor 7% acima do preço médio Esalq. Quando era uma cooperativa, esse percentual - no sistema cooperativo chamado de "sobras" - foi historicamente entre 4% e 5%.
Essas margens, esclarece Pogetti, não podem ser comparadas com as de usinas sucroalcooleiras, que ficam entre 25% e 30% (Ebitda). Mas também, continua o executivo, não demanda o mesmo volume de investimentos dessa indústria, tampouco sofre com riscos climáticos e oscilações de preços do açúcar e do etanol. "Se o preço está baixo é um prejuízo da usina, assim como se está alto, é um lucro dela. A margem da Copersucar vem da negociação acima do preço Esalq e da eficiência logística", explica Pogetti.
No entanto, pondera ele, para obter retorno de 25% de usinas com o porte que atingirão as sócias da Copersucar em 2015 (200 milhões de toneladas de cana), o investidor precisa aplicar em torno de US$ 30 bilhões. "Para ter o retorno de 7% no modelo Copersucar, esse valor cai para US$ 1,5 bilhão, que é o investimento projetado para atingirmos sócios com 200 milhões de toneladas de cana".

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Gol do Brasil: agência de risco eleva nota do País



JAPONESA RATING AND INVESTIMENT INFORMATION SUBIU A CLASSIFICAÇÃO DE BBB- PARA BBB, PARA ALEGRIA DO MINISTRO GUIDO MANTEGA; BOATOS HOJE FALAM EM REBAIXAMENTO DA FRANÇA, O QUE JÁ ACONTECEU, DE FATO, COM OS EUA; PUJANÇA DO MERCADO INTERNO É O GRANDE TRUNFO BRASILEIRO

A agência de classificação de risco japonesa Rating and Investiment Information (R&I) elevou o rating (nota) do Brasil de BBB- para BBB, com perspectiva estável. O comunicado da empresa afirma que, com a emergência das famílias de renda média "um robusto mercado doméstico está sendo criado no Brasil". Segundo a R&I, o risco de que a economia brasileira sofra seriamente com as mudanças drásticas no cenário externo diminuiu.
"A inflação está cedendo e, graças ao estrito respeito à lei de responsabilidade fiscal, a posição fiscal do País continua favorável", diz a nota. Enquanto o cenário da economia global se tornou mais conturbado, a administração fiscal e econômica do Brasil tem maior estabilidade, prossegue a R&I.
Para que a qualidade de crédito do Brasil aumente novamente, o governo precisa eliminar os gargalos do lado da oferta para o crescimento econômico, aumentando investimentos e fazendo esforços para mitigar as pressões inflacionárias ainda mais, diz a agência japonesa. Isso requer o aumento da taxa doméstica de poupança, que está atualmente abaixo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e um aumento na relação de investimento, de forma a não causar uma deterioração no balanço de conta corrente, acrescenta.
A agência afirma que o governo Dilma Rousseff "tem mantido firmemente a disciplina fiscal em linha com a lei de responsabilidade fiscal". Para 2012, a R&I aponta algumas preocupações, tais como as pressões de um aumento do salário do funcionalismo e das aposentadorias, num cenário de crescimento de dois dígitos do salário mínimo e da expansão dos gastos com construção de infraestrutura, como aeroportos, ferrovias e estádios para a Copa de 2014. "Mesmo assim, a R&I acredita que a possibilidade de que a disciplina fiscal do país sofra uma erosão séria é pequena."
A R&I havia elevado o Brasil a grau de investimento em abril de 2008. Na ocasião, a agência passou a nota brasileira de BB+ para BBB-.

Quebra na safra de cana faz usina reduzir pedidos de equipamentos


Indústrias do interior de SP que fornecem maquinário para usinas já estão com ociosidade
Com o adiamento dos pedidos pelas usinas, empresas de Sertãozinho já cogitam demitir empregados 

VENCESLAU BORLINA FILHO
DE RIBEIRÃO PRETO

A indústria sucroenergética já amarga os efeitos da quebra da safra de cana-de-açúcar na região centro-sul, com a queda no número dos pedidos de peças e equipamentos para ampliação ou manutenção de usinas.
No maior polo de empresas do setor, em Sertãozinho (313 km de São Paulo), os empresários estão preocupados com a produção e já consideram a possibilidade de cortes caso os pedidos não sejam retomados.
A preocupação com os empregos também atinge a direção do sindicato dos metalúrgicos da cidade. Em junho, o saldo de empregos na indústria foi negativo em 153 vagas, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.
No mesmo período do ano passado, o saldo foi positivo. "Tem trabalhador ocioso nas indústrias. E, se não entrarem novos pedidos, haverá mais demissões no setor", disse o diretor do sindicato, Francisco Alves Magalhães.
Paulo Saraiva, supervisor comercial da Brumazi -uma das maiores fornecedoras de maquinário e peças para o setor no país-, afirmou que quatro pedidos de usinas já foram engavetados por causa da baixa produção de cana. No faturamento, a quebra da safra já representa baixa de 15% na empresa.
Ele disse que as usinas que ainda estavam no processo de crescimento, após o início das atividades em meados de 2007, reduziram os investimentos com a crise de 2008 e agora com a falta de cana.
Hoje, a Unica (entidade representante das usinas) divulga sua nova estimativa de produção de cana. Em julho, houve queda de 6%.

FATURAMENTO MENOR
"A usina nasce pequena e vai crescendo com o canavial, a cada safra. Algumas já tinham superado a crise, mas agora veio a quebra da safra e não há matéria-prima para continuar a investir", disse Saraiva.
José Martineli, diretor comercial da Caldema -outra gigante do setor-, confirmou que os pedidos estão abaixo do esperado para este ano. "Em relação ao ano passado, nosso faturamento está 60% menor até agora."
Ele afirmou que reduziu os turnos de trabalho para apenas dois e que, se não houver novos pedidos nos próximos meses, poderá demitir funcionários. "Investimos em mão de obra, mas teremos de demitir se nada mudar."
O presidente da Sermatec (subsidiária da Zanini), Antonio Carlos Christiano, afirmou que a quebra da safra da cana só aumenta a incerteza para o setor. "As usinas não investem e as indústrias não trabalham", disse.
Ele afirmou que o governo federal deveria montar um plano específico para todo o setor sucroenergético, de forma a aumentar a produtividade na lavoura e incentivar novos investimentos na produção de açúcar e de etanol.

No começo desta semana, o presidente do CeiseBR (associação das empresas do setor), Adézio José Marques, demonstrou a preocupação dos empresários em encontro com o ministro da Agricultura, Wagner Rossi.
No final deste mês, o ministro confirmou que vai transferir seu gabinete para Sertãozinho para discutir medidas para o setor. O governo já sinalizou que os investimentos prioritários serão na produção de cana.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Redução maior na moagem de cana fará país elevar importação de álcool


O Brasil vai moer menos cana do que estava previsto e ter menos açúcar e menos álcool nesta safra 2011/12. Por outro lado, vai elevar as importações do combustível.
É o que aponta a nova estimativa de safra da consultoria Datagro, especializada no setor.
O levantamento indica recuo da moagem de cana no país para 584,6 milhões de toneladas. No centro-sul, serão 517,4 milhões, 16,5% menos do que na safra anterior.
O rendimento da cana cai para 137,45 quilos de ATR (Açúcar Total Recuperável) por tonelada de cana.
Os motivos para essa nova redução na oferta de cana-de-açúcar são vários, segundo Plinio Nastari, presidente da Datagro. Os produtores estão tendo problemas na colheita mecanizada, parte da cana foi afetada por geadas e há a incidência de pragas. Com a oferta menor de cana, a Datagro revisou a produção de açúcar para 31,85 milhões de toneladas no centro-sul, abaixo dos 33,5 milhões da safra anterior.
O consumo doméstico fica em 9,25 milhões de toneladas, enquanto as vendas externas recuam para 22,35 milhões. Em 2010, as exportações do centro-sul somaram 23,2 milhões de toneladas.
A produção de álcool do centro-sul caiu para 21,9 bilhões de litros, 13,7% menos do que na safra anterior. A queda ocorre na oferta de álcool hidratado, que recua para 13,3 bilhões de litros, 25,7% menos do que em 2010/11. A oferta de anidro sobe para 8,6 bilhões de litros Ðmais 15,7%.
O cenário de queda na produção interna fez a Datagro reavaliar as importações totais de álcool do país para 1,49 bilhão de litros -455 milhões no ano passado. 

Energia para indústria é a 4ª mais cara do mundo


Tarifa média brasileira está 131% acima da de parceiros comerciais

Alto custo inicial, de geração, transmissão e distribuição, esquenta debate sobre renovação das concessões do setor

TATIANA FREITAS
DE SÃO PAULO

A indústria brasileira paga a quarta conta de energia mais cara do mundo, o que afeta a sua competitividade. A tarifa de consumo industrial, de R$ 329 por MWh na média nacional, fica atrás apenas de Itália, Turquia e República Tcheca, segundo estudo inédito da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro).
A tarifa média dos 27 países que participaram do levantamento foi calculada em R$ 215,50 por MWh. O preço brasileiro, portanto, é 53% superior à média mundial. Considerando a média dos Brics [R$ 140,70 o MWh], a tarifa brasileira é 134% maior. A indústria nacional também paga 131% a mais do que a média de seus principais parceiros comerciais [EUA, Argentina, China e Alemanha], de R$ 142,20 o MWh. "Sob qualquer ótica, estamos muito acima do razoável em termos de competitividade", afirma Cristiano Prado, gerente de competitividade e investimentos da Firjan.
O trabalho reforça o alto peso de encargos e impostos sobre o custo total -eles representam 48,6% da tarifa. Mas os custos de geração, transmissão e distribuição, o chamado GTD, também têm forte influência no total. Segundo o estudo, só o custo de GTD no Brasil, de R$ 165,50 por MWh, supera a tarifa de competidores como China e Argentina, apesar da vantagem hídrica brasileira.

CARO NA PARTIDA
O alto valor do GTD esquenta o debate sobre a renovação das concessões do setor elétrico que começam a vencer em 2015. A indústria, liderada pela Fiesp, defende novas licitações, apostando em preços mais baixos após novos leilões. "A tendência natural é o preço despencar", diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
Segundo ele, será possível reduzir a tarifa de R$ 90 o MWh [média cobrada hoje pela geração nas usinas com renovação prestes a vencer] para R$ 20 o MWh, pois os investimentos na construção dos empreendimentos já foram amortizados e restarão apenas custos operacionais.
"O impacto será grande, pois 30% da geração, 40% da distribuição e 80% da transmissão devem vencer a partir de 2015", afirma. A Fiesp entrou com representação no TCU (Tribunal de Contas da União) solicitando intervenção para que sejam tomadas providências para a realização de novos leilões.
"Se o GTD não cair 35%, estaremos fora do jogo da competitividade industrial", diz Prado, da Fierj. A possibilidade de nova licitação é descartada pelas empresas de energia. "O processo tende a ser de renovação com onerosidade", diz o presidente da ABCE (Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica), José Simões Neto.
A Abradee (associação de distribuidores) diz que os novos leilões não teriam impacto nas tarifas de distribuição, já revistas a cada cinco anos.

Governo traça dois cenários "tranquilos"

Nelson Barbosa, da Fazenda: "A China é o ponto mais crucial, porque nos afetaria na economia real imediatamente"
A equipe econômica trabalha com dois cenários para o pós-crise dos mercados e, em ambos, a avaliação é que o Brasil se sairá com "relativa tranquilidade". Nos dois casos, o país seria "atingido" pelos mesmos canais, mas com sinais opostos: nos preços das commodities, pelo lado da economia real, e, no financeiro, na conta de capital do balanço de pagamentos.
Segundo Nelson Barbosa, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, o que ocorre nos mercados financeiros desde a noite de sexta-feira, quando a Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito dos Estados Unidos, é uma reavaliação das previsões e dos preços dos ativos, não uma crise financeira. "Ainda é cedo para avaliarmos com segurança o que está por vir", diz Barbosa, "mas o que assistimos é um reposicionamento do mercado a um mundo em que as previsões são de crescimento cada vez mais baixos nos Estados Unidos e na União Europeia".
Para o Brasil, o centro de qualquer análise deve partir da China. Segundo Barbosa, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês não deve se alterar no curto e médio prazo, mantendo sua trajetória de avanços anuais próximos a 10%, o que deve sustentar a elevada demanda por commodities. "A China é o ponto mais crucial, porque nos afetaria na economia real imediatamente."
No primeiro cenário a equipe econômica leva em conta a queda nos preços das commodities - fenômeno já verificado nos últimos dias - em decorrência de uma menor demanda mundial e, também, pela aversão ao risco por parte dos investidores que aplicam em contratos de commodities na Bolsa de Valores de Chicago (EUA). Ao mesmo tempo, maior aversão a risco traria menos capital ao país, o que reduziria a valorização cambial.
Nesse caso, avalia Barbosa, os ganhos seriam para a política de controle da inflação. "O câmbio se desvalorizaria, mas a queda de preços das commodities seria maior, o que produziria uma inflação menor." No entanto, neste caso, o enfraquecimento das commodities também reduziria o saldo comercial, majoritariamente sustentado pela exportação de produtos básicos. "Mas não seria nada drástico", acredita.
O segundo cenário seria o inverso. A extensão de uma política monetária francamente expansionista na União Europeia, no Japão e nos EUA manteria o fluxo elevado de divisas para o país, mantendo o câmbio em níveis próximos ao atual (cerca de R$ 1,60) e também as cotações das commodities em nível mais elevado.
"Estamos preparados para os dois cenários", avalia Barbosa, para quem o crescimento do país é "muito sustentado pelo mercado doméstico, e as medidas que lançamos nas duas últimas semanas sustentarão esse patamar aquecido no ano que vem".

Importação de etanol pode atingir recorde


Agroenergia: Estimativa da Datagro é de 1,49 bilhão de litros nesta safra; desde 1995 volume não é alcançado

A queda na produção de etanol no Brasil na atual safra, a 2011/12, pode fazer com que o país tenha de importar volumes recordes do biocombustível para atender à sua demanda por anidro, que é misturado à gasolina. A consultoria Datagro, que ontem revisou novamente para baixo a moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul, prevê que o país terá que trazer do exterior em torno de 1,49 bilhão de litros no atual ciclo, que vai até março de 2012. Na temporada passada, desembarcaram no país 455 milhões de litros de etanol.

A última vez que o Brasil importou volume semelhante foi em 1995, quando 1,417 bilhão de litros foram adquiridos no exterior. Na época, entre outras razões, havia risco de desabastecimento interno. Além disso, como hoje, os preços do açúcar estavam mais remuneradores, e as usinas maximizavam a produção do adoçante.
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Nos três primeiros meses da atual safra - entre maio e julho - já entraram no país 308,11 milhões de litros de etanol. "O restante entrará ao longo deste ano até o início de 2012", diz o presidente da Datagro, Plínio Nastari.
Esse cenário se desenha no horizonte porque a produção de etanol deve ser ainda menor do que o estimado anteriormente. Nos cálculos da Datagro, será de 21,91 bilhões de litros, 3,47 bilhões de litros abaixo do produzido na temporada passada. Em relação à estimativa de junho da consultoria, a queda é de 880 milhões de litros.
As geadas que, em 27 e 28 de junho atingiram os canaviais do Centro-Sul, foram as principais responsáveis pela revisão recente, diz Nastari. A empresa prevê agora uma moagem de 517,36 milhões de toneladas de cana na região, 2,14% menor do que estimava em junho (528,72 milhões de toneladas) e 7,09% abaixo dos 556,88 milhões da safra passada.
Segundo Nastari, outras revisões para baixo ainda podem ser feitas nos próximos meses. Isso porque os atuais números ainda não contemplam os efeitos da geada do início deste mês.
Ele acredita, no entanto, que a tendência para o ano que vem é de uma importação menor de etanol. A expectativa é de que os preços do açúcar fiquem menos atrativos do que os do etanol, estimulando as usinas a um mix mais alcooleiro.
Mesmo maximizando a fabricação de açúcar, as usinas do Centro-Sul, que processam 89% da cana do Brasil, não conseguirão produzir tudo o que esperavam, segundo a Datagro. Em vez de 32,80 milhões de toneladas, como previsto em junho, a região deve fabricar um volume de 31,85 milhões de toneladas da commodity. Isso deve afetar as exportações do produto, diz Nastari, que tendem a recuar de 23,30 milhões de toneladas, segundo previsão de junho, para 22,35 milhões de toneladas. Em relação à safra 2010/11, os embarques podem cair 3,58%.
Beneficiada por um clima mais favorável, a região Nordeste deve moer mais cana do que no ciclo anterior, segundo a Datagro. A previsão é de 67,3 milhões de toneladas, ante as 64,5 milhões de toneladas do ciclo 2010/11. A entrada de Tocantins na estatísticas (com a usina de Pedro Afonso, da Bunge) e o aumento do volume de cana em Alagoas e na Bahia explicam a alta nordestina.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Para analistas, investimento crescerá em ritmo moderado

Conjuntura: Avanço da FBCF no primeiro semestre foi de cerca de 7%

Bráulio Borges: construção perdeu ímpeto, porque setor "bateu no teto"

Depois de crescer mais de 20% no ano passado, o investimento na ampliação da capacidade produtiva avança a ritmo bem mais moderado neste ano. Para o primeiro semestre, os analistas projetam crescimento na casa de 7% para a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) em relação a igual período de 2010.
A alta dos juros, o efeito do câmbio valorizado sobre a indústria de manufaturados, a maior ociosidade na economia e a desaceleração das inversões do governo são os principais fatores que explicam a perda de fôlego da FBCF, além da base de comparação mais elevada.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, projeta expansão de 7,3% para o investimento no primeiro semestre, resultado de uma alta de 3,8% da construção civil e de 8,7% do consumo aparente de máquinas e equipamentos (soma da produção e da importação, excluindo a exportação). A produção local de bens de capital aumentou 6,5% e a importação aumentou 26% no acumulado do ano, mas a exportação teve alta também expressiva, de 18,4%, o que segura um pouco o aumento do consumo aparente.
Para Vale, depois de crescer 21,8% no ano passado, após a queda de 10,3% em 2009, o investimento entrou numa fase de expansão mais moderada, possivelmente na faixa de 5% a 10% ao ano. A própria desaceleração da economia, num cenário de alta de juros, colabora para uma FBCF mais fraca que em 2010, diz. Os estragos que o câmbio valorizado têm feito na indústria de manufaturados também levam a uma desaceleração nas inversões desses setores.
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"O investimento está muito concentrado nos segmentos que produzem commodities e nas suas cadeias produtivas", diz, observando que, num cenário de ajuste fiscal, o governo federal tem investido com mais comedimento - de janeiro a junho, a alta sobre igual período de 2010 foi de apenas 1,5%.
O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, diz que o investimento tem uma forte correlação com o nível ociosidade na economia. Nos últimos meses, lembra, o nível de utilização de capacidade instalada da indústria de transformação tem recuado, atingindo 84,1% em julho, na série com ajuste sazonal. É um número superior aos 81,5% que, segundo as suas estimativas, ainda estimulam o investimento em atividades produtivas, mas é um incentivo bem menor do que se o número estivesse na casa de 85% ou mais, como ocorreu em boa parte de 2010.
"Isso afeta o investimento industrial", diz o economista, observando que as condições do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES, tornaram-se menos generosas. "Houve redução de prazos e aumento dos juros, o que tende a ter algum impacto negativo."
Borges estima crescimento de 6,7% para a FBCF no primeiro semestre e de 5% no ano fechado. É mais que a alta prevista para o Produto Interno Bruto (PIB), de 3,4%, mas um número bastante modesto se comparado aos 21,8% de 2010. Vale é um pouco mais otimista e espera expansão de 7,9% para o investimento neste ano. Para o PIB, projeta alta de 4,2%.
Um ponto que chama a atenção é o fraco desempenho da construção civil no ano. De janeiro a junho, a produção de insumos típicos da construção cresceu apenas 3,8%. Para Borges, "uma boa hipótese" para explicar a perda de ímpeto de crescimento da construção civil é que o setor bateu no teto, como sugere o nível de uso de capacidade instalada de material de construção, que beirou os 90% durante boa parte do primeiro semestre de 2011, e também a taxa de desemprego do setor, estimada em 3% pelo IBGE. Além disso, diz que há redução da demanda em grandes capitais, como São Paulo, em função dos preços elevados.
Alesssandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, estima uma alta de 7,2% da FBCF no semestre, número muito próximo ao estimado por Vale. Para ela, a base de comparação é mais forte, dado o aumento superior a 20% registrado no ano passado. "Há também o efeito da política monetária", diz. Ela prevê um segundo semestre mais fraco para o investimento. Para 2011, projeta uma alta de 5,4% para a FBCF, acima do crescimento do PIB, de 3,9%.
Há maior disparidade nas previsões para o desempenho do investimento no segundo trimestre, mas mesmo as projeções mais otimistas não sugerem crescimento dos mais fortes. A MB estima alta de 1,5% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, superior ao 0,7% previsto pela LCA, mas não muito maior que o aumento de 1,2% registrado no período de janeiro a março. A Tendências projeta alta de 0,9%. Segundo Vale, a estimativa do avanço trimestral mostra mais volatilidade, dada a questão do ajuste sazonal.
As projeções apontam para um investimento bem mais fraco do que em 2010, ainda que avance a taxa superior ao do PIB. Com isso, a FBCF como proporção do PIB, que fechou em 18,4% em 2010, deverá subir um pouco mais. Borges estima a taxa de investimento em 18,9% do PIB neste ano.

Consumo de hidratado volta a cair em julho

O consumo de etanol hidratado, que abastece diretamente os veículos, continua em queda no país, pressionado pelos preços mais altos nos postos de combustíveis. Em julho, foram vendidos 950 milhões de litros no país, queda de 33% na comparação com julho de 2010, segundo dados preliminares do Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas de Biocombustíveis e Lubrificantes), cujas associadas representam 60% do mercado brasileiro de etanol hidratado. Em relação ao mês de junho deste ano, a retração no consumo foi de 12%.

A demanda parece estar em equilíbrio com a oferta de etanol, que está melhor neste ano, avalia o presidente do Sindicom, Alísio Mendes Vaz. No acumulado do ano até julho, a estimativa da entidade é de uma queda de 22% com a venda ao consumidor final de 5,36 bilhões de litros, ante os 8,174 bilhões de litros registrados em igual intervalo de 2010.
Pela primeira vez em dez anos, a safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul não vai crescer. Segundo estimativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a moagem vai recuar 6,16%, para 533 milhões de toneladas, na comparação com o ciclo anterior. Com isso, a produção de etanol será 2,84 bilhões de litros menor.
Mas há agentes do mercado apostando em números menores. A consultoria Archer Consulting divulgou ontem relatório em que prevê moagem de 515 milhões de toneladas, o que, se confirmada, representará uma quebra de safra de 7,3%. (FB)

Falta de investimentos põe em xeque o mercado de etanol

Em julho, os senadores americanos firmaram acordo para eliminar o subsídio aos produtores de etanol de milho e as barreiras para a importação do biocombustível a partir de 31 de julho.
No acordo, o crédito tributário de US$ 0,45 por galão de etanol misturado à gasolina e a tarifa de US$ 0,54 por galão de etanol importado não seriam renovados.
Apesar de a iniciativa ser positiva para o Brasil, o país atualmente passa por uma crise no setor sucroalcooleiro, encontrando dificuldades para abastecer o mercado doméstico.
O setor de etanol, que vinha em franca expansão desde a introdução dos veículos flex em 2003, foi atingido fortemente pela crise de 2008.
No primeiro semestre de 2009, a falta de crédito forçou as empresas a escoarem grandes volumes de etanol, a baixos preços, para se capitalizarem, fazendo o consumo do biocombustível aumentar significativamente.
Apesar do aumento no consumo, o volume de investimentos em novas unidades produtoras, que era crescente, entrou em trajetória decrescente.
Na safra 2005/2006 entraram em operação nove novas unidades; em 2008/2009, auge dos investimentos, foram 30 novas usinas. Na safra 2009/2010, porém, esse número caiu para 19, com decréscimo de 36%. Para a safra 2011/2012, são esperadas apenas cinco unidades.
A moagem de cana cresceu, em média, 11,5% ao ano de 2000 a 2008. Após a crise, esse crescimento caiu para a média de 5% ao ano até 2010. Para a safra de 2011, é esperada diminuição na moagem.
Segundo a Unica, as estimativas para a safra 2011/12 apontam para a moagem de 533,5 milhões de toneladas, com redução de 4,8% ante o valor final da safra 2010/11, de 560,54 milhões.
A Unica apresenta como principais fatores para essa redução a menor renovação dos canaviais nos últimos anos e o período de estiagem entre abril e agosto de 2010.
A falta de investimentos em novas unidades, na expansão da área plantada e na renovação dos canaviais está restringindo a oferta.
A expectativa para a safra 2011/12 é que sejam produzidos 22,5 bilhões de litros, 11,2% menos que a safra anterior.
A disparidade entre oferta e demanda está gerando distorções no mercado. A cada ano, os preços estão se posicionando em patamares mais elevados e, ao contrário dos outros anos, em 2011 a usual redução de preços nos meses de março e abril, período de entrada da safra, só foi observada em maio.
O preço médio do hidratado em abril ficou em R$ 2,345 por litro, o maior em seis anos da série da ANP. Na média das três primeiras semanas de julho, o preço do hidratado voltou a subir, fechando em R$ 1,955, mesmo em plena safra e com estoques elevados.
Os baixos investimentos nos últimos anos, que demoram cerca de cinco anos para entrar em plena operação, e a persistência na manutenção artificial do preço da gasolina põem à prova o futuro do etanol.

ADRIANO PIRES é diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura).